sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Lágrimas do Céu
O céu está triste.../E o coração do Poeta aperta cada vez mais.../As nuvens da beleza não escurecem mais a terra onde mora os lindos amores.../No final da longa estrada dois corações se despedem.../Um dia irão se encontrar/Até lá, as lágrimas do céu cairão para refrescar a imensa saudade dos amantes.../Os anjos tocarão lindas melodias para acalmar os corações dos apaixonados.../Não lamente a despedida.../Porque o amor nunca morre...ele é eterno.../Jamais esquecerei o sabor dos teus beijos.../Se viajar antes de mim...me espere na estação da eternidade...
segunda-feira, 14 de julho de 2014
PAIXÕES DE HELENA
Nos confins do pensamento de Helena tudo tinha sentido, exceto os últimos acontecimentos, que aconteceram sem dar tempo para que ela pensasse numa saída honrosa. Até então tudo parecia tranquilo. Até mesmo o tempo estava contribuindo, o sol brilhava depois de duas semanas de chuva e a noite brilhava com a presença da lua cheia e as estrelas cintilavam no firmamento.
Há momentos em que a vida é igual a uma longa estrada, sem curva perigosa. Quando acostuma-se com a calma, essa mesma estrada, antes tranquila torna-se traiçoeira. Foi um grande temporal e desmontou as emoções de alegrias, transformando-se em decepção e lágrimas. Quando se pensa que a felicidade existe, ela sinaliza que não. As duas paixões de sua vida viraram dois tormentos. A imagem a sua frente virou um tango triste, uma melodia que cortava o coração. Estavam no chão, as paixões que lhe deram momentos inesquecíveis.
Dançarina de boate, durante a noite ela procurava viver a vida de acordo com o momento. Mas com os acontecimentos, a sua vida se transformou num profundo desastre sentimental. Desde os 15 anos, Helena trabalhava de noite e dormia de dia. Aprendeu a dançar tango com Camorra, dançarino argentino, em Buenos Aires. Foi ele que ensinou a arte da dança e da sensualidade, nos salões da capital argentina.
Nesse período, foi amante dele e de seus amigos. Isso porque ela era dividida com os demais dançarinos de tango. Sempre depois das apresentações nos teatros, Helena e Camarro iam beber nos cabarés e depois acabavam a noite fazendo amor de todas as formas. Quando a rotina ficava muito tediosa, eles traziam o professor Marco Antônio para brincar de sexo a três.
Helena, linda, magra, morena, olhos pretos, lábios carnudos, sabia os passos do tango, jamais errava um passo. Já Camarro, quando bebia demais, os passos se misturavam, dando a impressão que ia cair. Mas ela, conseguia fazer do erro um acerto com suas coxas sendo expostas aos olhos dos clientes. Muitos esperavam por esse momento, porque não era somente as lindas pernas que ela exibia e sim as partes intimas, pois não gostava de usar calcinha e nos giros dos pés, ao som de “Por Una Cabeza”, de Carlos Gardel, os clientes iam à loucura. Isso também foi ensinado por Camarro, um voyeur e conhecedor dos olhares sensuais da plateia dos cabarés.
Buenos Aires, 1930. Ano do Golpe de Estado, conhecido também como Revolução de Setembro, que envolveu a derrubada de Hipólito Yrigoyen. Esse movimento foi conduzido por José Féliz Uriburu e Juan Domingos Perón.
Enquanto o mundo político fervia, o tango era o remédio para as angústias e alegrias do povo argentino. Nas ruas e avenidas largas da capital argentina, com seus cafés, cabarés e alguns dos teatros mais importantes de Buenos Aires, Helena era conhecida e admirada por todos.
O bairro San Telmo, um dos mais antigos e preservados de Buenos Aires, possuía uma atmosfera boêmia e era o local escolhido por artistas. Era nesse bairro que Helena, Camarro e Marco Antônio, viviam. Tudo fazia parte de um mesmo mundo. Enquanto Uriburu e Perón articulavam uma nova Argentina, o tango mostrava ao mundo a beleza dos passos e a sutileza dos corpos em movimento. Vários generais foram amantes de Helena, a mais linda dançarina portenha. Ela fazia da noite o maior acontecimento da sua vida e de quem estivesse nos seus braços.
A magia contaminava o mundo intelectual de San Telmo e nada era mais sublime que ver um casal dançar tango, enquanto o som quebrava a suavidade e o silêncio das ruas. Quando a força do tango avançava nos corações e mentes, vários artistas iam para as ruas de San Telmo para transformar ruelas em grandes salões de apresentações. Todos eram contaminados pelo veneno transcendental da música e dos passos que os dançarinos, embriagados, mostravam. Cada passo obedecia o olhar das pessoas que procuravam penetrar na essência da musicalidade do tango.
Ali, Helena viu a grandeza e ao mesmo tempo a beleza de se deixar envolver pela música que fazia do coração uma ponte para a morte. Entre um gole de vinho e o requebrado dos corpos, muitos corações deixaram de bater para voltar a reviver nos porões do além.
Marco Antônio, em momentos de êxtase musical, costumava dizer que “morrer dançando tango seria um presente de Deus aos dançarinos...”
Dentro desse contexto, de pura adrenalina existencial, Helena se entregava totalmente à arte da dança dos deuses, porque assim era chamado o tango nas décadas de 20,30 e 40, na Argentina. A emoção era tão forte que até mesmo na hora de fazer amor, os amantes sentiam uma profunda emoção em ouvir o som das cordas de um violão, entre um orgasmo e outro, nas madrugadas sem fim.
O tango começou a ser tocado e cantado mundo afora. Os ricos europeus vinham passar as férias em Buenos Aires, para fazer parte do mundo mágico do tango. Tudo conspirava para que Helena, dançarina dos grandes teatros e cabarés, fosse a mulher dos sonhos de todo homem com poder e riqueza.
Com 26 anos de idade, ela sabia que tinha um tempo, um prazo de validade. Logo as marcas do tempo iriam fazer dela uma velha dançarina e somente os cabarés de baixo padrão iriam lhe dar emprego ou guarida. Tudo isso martelava na sua cabeça, porque não conseguia guardar dinheiro para quando esse momento trágico da vida de todos os seres chegasse.
Camarro, dançarino que nunca soube ter uma vida glamurosa, não tinha essa preocupação. No início, todos o chamavam de maricas, pois vivia dançando e rebolando pelas ruas de San Telmo.Até que um dia Marco Antônio resolveu lhe dar oportunidade, levando-o para a sua academia de dança no centro de Buenos Aires. Lá aprendeu de tudo, até como conquistar uma mulher nas noites alegres da vida dos encantados dançarinos. Marco Antônio disse-lhe, num certo momento da sua juventude:
- Camarro, meu amigo e parceiro das noites, faça da tua vida uma eterna dança. Mesmo que teu coração esteja amargurado, não demonstre, ria e dance. Quando a morte bater a tua porta, não fique com medo, convide ela para dançar. Assim você irá transformar esse momento triste numa dança que até mesmo a morte se tornará tua amante.
- Por que você está dizendo isso, Marco Antônio? –perguntou Camarro, sem entender nada.
- Porque você precisa aprender algumas regras dos dançarinos. Relaxe e deixe o tango guiar os teus passos. Sinta o som musical penetrar no teu corpo e na tua alma. Nós somos artistas, criaturas especiais, seres que a divindade cuida e abençoa. Nascemos para alegrar as pessoas e fazer da dança um momento sublime, mesmo que por dentro estejamos estraçalhados.
As palavras do Marco Antônio ficaram gravadas para sempre na mente de Camarro. Quando Helena ficava triste e sem vontade de dançar, ele repetia o que tinha ouvido de Marco Antônio.
Helena, por mais que estivesse envolvida com os dois, nunca os conheceu profundamente. Marco Antonio, mais velho e mais rodado que Camarro, nunca foi casado, simplesmente viveu com a dança e fez do tango uma estrada sem endereço fixo. Ela jamais iria entender o que se passava com os seus dois amantes. Muitas noites, quando o frio de Buenos Aires tomava conta das ruelas de San Telmo, Marco Antonio e Camarro desapareciam uma semana inteira, para reaparecerem sem dar nenhuma explicação. Pareciam cansados, mas com forte brilho nos olhos...
Helena, mulher e dançarina de tango, tinha pelos dois um imenso amor que beirava a loucura. Exigia que fosse possuída pelos dois nos camarins dos teatros e nos quartos de cabarés. Ela dizia que só poderia participar das apresentações se fosse tocada intensamente por eles. Como mulher, sabia que os dois faziam dela a deusa dos desejos carnais.
Em julho de 1932, numa sexta-feria fria, perto da meia-noite, no principal teatro de San Telmo, cinco generais do novo sistema, expoentes da Revolução de Setembro, assistiam sem piscar os olhos, a dança onde Helena sentiu pela primeira vez o seu corpo tremer ao perceber que tinha chegado ao orgasmo ao ver que eles estavam observando as suas coxas sendo acariciadas num requebrado frenético de Camarro. Depois dessa apresentação, tanto ela quanto Camarro, tornaram-se convidados especiais dos militares nas orgias dos quartéis. Ela virou a queridinha do poder militar.
Por mais forte que seja uma emoção, por mais longa que seja uma noite de pura magia sensual, tudo passa. Foi assim que aconteceu. Ao chegar no apartamento na praça de San Telmo, Helena viu um grande movimento. Aproximou-se e percebeu que alguma coisa tinha acontecido no seu prédio. Para sua surpresa, as pessoas entravam e saíam do apartamento onde morava. Foi abrindo passagem entre curiosos e, no quarto, dois corpos estendidos esperavam para ser levados para o IML. Na sala, um Senhor, com uma arma na mão, chorava copiosamente. Ela perguntou:
- O que se passa?
- Eu matei os dois. Fui amante do Marco Antonio durante muitos anos. Ele me trocou por esse rapaz. Agora acabou tudo. – disse - e abaixou a cabeça, continuando a chorar.
Helena ouviu o que jamais gostaria de ter ouvido na vida. Nunca passou por sua cabeça que os seus dois amores eram maricas. No decorrer dos dias seguintes algumas imagens vieram a sua mente. Começou a entender o passado dos dois.
Ela ainda tem no pensamento uma frase dita por Marco Antonio para Camarro numa noite de 1929, “me gusta tomar tequila blanco...soy un hombre que mora nu corazón de la tango. Tu corazón tiene gusto a miel”. Hoje, Helena consegue entender que Marco Antônio estava se declarando a Camarro.
Ela amava dois hombres e não dois maricones. O destino estava sendo cruel demais com Helena. Esses acontecimentos fizeram dela uma outra mulher. Abandonou o tango, e a dança morreu no seu coração. Largou San Telmo e Buenos Aires para sempre. Foi morar numa cidadezinha da Patagônia. Quando o frio chegava, velha e cansada, Helena olhava para as fotos de Camarro e Marco Antônio, tentando reviver os momentos que passaram juntos nas noites de tango, mas não adiantava, tudo tinha terminado. Esperou o fim chegar e, como toda dançarina, fez da morte uma dança, onde o coração para de bater de forma lenta e com glamuor.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
AVE DE ARRIBAÇÃO
Sessenta e cinco anos de uma longa vida, muitas estradas percorridas, noites sem fim e a certeza de que ainda tem que continuar a viver. Desde cedo, quando ainda era criança, sentia que iria cansar de caminhar pela estrada do tempo. Na infância sofreu vários abusos, fome e frio foram as suas companheiras. Filho do acaso, não teve oportunidade de receber uma educação adequada, somente aquilo que a escola da existência ofereceu, nada mais. Os pais fugiram das responsabilidades e o deixaram à mercê da sorte, sendo criado pela irmã mais velha, que também lhe deu somente o que tinha. Foi aluno das escolas da vida, da rua, dos boeiros imorais, guetos sexuais e outros parasitas que a sociedade oferece aos deserdados. Enfim, uma criança criada no lodo do sistema.
Cresceu numa cidade pequena, distante de tudo, conheceu somente meia dúzia de pessoas que lhe deram certa confiança. Mundo pequeno para uma criança repleta de sonhos, imensa vontade de sair, avançar para um lugar onde pudesse mostrar os seus dons trazidos no fundo da sua alma. Ao seu redor, pobreza, injustiças, brigas e vinganças mostravam a ele que, por mais sonhador que seja alguém, é difícil quebrar essas barreiras, sair da lama, voar para outros lugares mais dignos para viver.
Com extrema dificuldade estudou o primário e o ginásio, depois, o mundo foi a sua escola. A corrente do destino acabou levando-o para outros pontos, distante daquele mundo pequeno em que foi criado. Como pedra que rola, rolou por todos os recantos, sem conseguir fixar raiz em algum lugar. Foi estudante das contradições do sistema econômico e da exploração. Carregou nas costas as marcas de uma infância dominada pela falta de orientação que mostrasse o caminho do sol e do norte da vida.
Esse é Pedro, que depois de tudo, depois de perambular pelas noites e loucas caminhadas, tornou-se professor de literatura moderna de uma faculdade particular. Isso só aconteceu porque foi amante de uma mulher casada, rica e poderosa, pertencente à elite abonada. Ela custeou seus estudos e pagou várias despesas. Após a formatura, ele abandonou a ricaça, que não suportou ser descartada e acabou se suicidando.
Pai de vários filhos, que foram deixados ao relento, e amante de belas mulheres, que também deixou pelo caminho, depois de usá-las. Como nunca foi levado a sério, levou consigo o pensamento de que uma vez que tinha apanhado tanto no passado, podia bater também. Dizia sempre que assim como foi abusado, iria abusar no presente e no futuro. Prometeu que se vingaria de todas as injustiças praticadas contra ele, quando ainda era criança e adolescente.
Mesmo com sangue envenenado pelas injustiças, Pedro era uma pessoa comunicativa, alto, de olhos pretos, trazia no coração e na alma a determinação dos imigrantes italianos. Nas horas livres pegava seu violão e tocava lindas canções. Ele também só aprendeu a tocar violão porque namorou uma professora de música. Em tudo que fazia, a sensualidade estava presente.
Quando a noite chegava, sozinho na varanda da sua casa, ao observar o nascimento da lua cheia, tocava a canção dos amantes, que dizia que “o amor é uma coisa forte, se parece com a lua, ilumina a alma...” Mesmo com esse dom maravilhoso, Pedro era um desajustado para a sociedade. Com seu talento de sedutor, separou inúmeros casamentos, sem nunca ter piedade.
Num domingo do verão de 2009, no dia do seu aniversário, ao completar 65 anos, no momento em que tocava violão, uma jovem aparentando 22 anos se aproximou e disse:
-Que linda música o senhor está tocando!
-Obrigado, mas não gosto que me chame de Senhor.
-Desculpe. Como é seu nome? – perguntou a jovem.
-Pedro. E o seu?
-Letícia. Eu gostaria de conversar um pouco com você. Posso?
-Com toda certeza! Hoje é um dia especial para mim, e mesmo sendo um dia especial, me encontro comemorando esse dia sozinho. – acrescentou Pedro, com certa melancolia.
-Não sou muito boa em tornar as pessoas alegres. Como não tenho nada a fazer, posso ficar algum tempo com você, para conversarmos.
- Então, entre e sente-se nessa cadeira. Enquanto apreciamos o vale, que a cada dia está mais bonito, vamos trocando palavras. A conversa sempre nos traz ensinamentos, acalma a alma, suaviza a mente e abre os horizontes. – sinalizou Pedro, já mais descontraído.
Pedro e Letícia conversaram por um longo tempo. Cada um falando de suas experiências nos seus mais variados aspectos. Ele, por ser mais velho, conversou mais, e ela falou sobre a sua juventude. Durante seis meses eles trocaram informações e se conheceram melhor. Acontece que tanto Pedro quanto Letícia sentiram que alguma coisa estava ocorrendo, porque a situação começou a ficar diferente. Se no início havia certo controle, aos poucos o contato físico foi avançando e ultrapassando os limites. De um simples beijo, foi a um beijo quente e sempre nos lábios, deixando que a sensualidade dominasse os seus corpos.
Pedro começou a entender a situação e resolveu parar com tudo. Determinado dia disse à Letícia:
- Preste atenção: nós devemos parar de nos encontrar. Eu sirvo para ser teu avô e já tenho uma vida repleta de relações mal resolvidas, que não levaram à nada. Você é nova e tem uma vida inteira pela frente. – ponderou.
- Eu não me importo. Desde o início eu já sabia que iríamos chegar onde chegamos. Quero viver o momento como fosse o último. Também sei quem é você. – acrescentou Letícia.
- E quem sou eu? – perguntou Pedro, demonstrando certo constrangimento.
- Você é um homem que nunca amou ninguém. E não será agora, aos 65 anos, que irá amar. Se esse é o motivo, para mim está tudo certo, até porque ainda não aconteceu o que eu quero que aconteça. – revelou Letícia, resolvida em aprofundar a relação com ele.
Pedro resolveu deixar que as coisas chegasse até ao que ela queria. Agora, tudo claro no que dizia respeito às emoções amorosas, o mundo da sensualidade tomou conta deles.
Ainda era início da primavera, as flores estavam começando a florir o vale onde Pedro morava e Letícia queria se tornar mulher. Os pais de Letícia estavam viajando e sendo filha única, ela não tinha ninguém para atrapalhar os seus planos com seu amado. Após Pedro tocar uma música em que fazia com que o violão acalentasse os corações dos amantes, eles não resistiram às profundas carícias e foram para a cama. Com sua longa experiência de amante, Pedro fez de Letícia uma mulher feliz no sentido mais sensual possível. Ela viu o mundo mudar. Agora era uma mulher pronta para a sociedade. Não era mais aquela virgem à espera de um príncipe encantado.
A noite estava terminando e a madrugada iniciando a sua jornada para desaparecer dos olhos do mundo. Os raios do sol estavam apontando no alto da montanha e os passarinhos cantavam à procura de alimentos e saudar o novo dia. Pedro levantou da cama, lentamente, para não acordar a sua amada. Sentou na varanda para observar os primeiros movimentos de um novo dia. Letícia dormia o sono de uma mulher plenamente satisfeita. Ele se indagava sobre os motivos que levaram uma moça linda a se apaixonar por um homem bem mais velho e cafajeste.
O pensamento viajou para bem longe, onde iniciou a vida de aventureiro. Nunca tinha parado para pensar em nada. Fazia da mulher um ser para ser conquistado e deixado para trás, como uma terra onde o mato toma conta sem que ninguém cuide. Para ele, a mulher nasceu para ser assim, usada pelo homem e depois colocada de lado. Com Letícia não estava sendo assim. Talvez a idade dele, o pouco tempo de vida que ainda lhe restava estivesse tornando-o mais cansado das aventuras. Alguém no passado tinha dito que ele era igual a ave de arribação, que nunca permanece num mesmo local, sempre voando para todos os cantos do mundo, e no final morre sozinha no alto das montanhas, sendo isca para as águias de longas asas e bicos finos.
Hoje, ele compreende o que foi dito lá atrás. Às vezes olha para o alto da grande montanha e chega a imaginar sendo devorado pelas águias. Depois, volta à realidade e pensa que tudo também tem um momento, mas no fundo percebe que seu momento está se aproximando.
Letícia acorda e olha Pedro sentado na varanda. Levanta enrolada no lençol e dirige-se a ele, dizendo:
- Não pare para pensar. Deixe que o destino guie você. Imagine que está sendo levado rio abaixo, num pequeno barco. Nós não somos donos do destino, podemos até tentar escrever um, mas não adianta, existe uma força que nos leva a um local já traçado. Venha para os meus braços...Assim você vai sentir que a vida foi feita para ser vivida cada instante...
Pedro ouviu as palavras da sua jovem amante e concordou totalmente. Segundo ele, no fundo eram iguais, mas com alguma diferença. Letícia pensa e sabe o caminho que está percorrendo. Pedro não. Ele é guiado pelo vento da paixão momentânea, pela safadeza, imoralidade, irresponsabilidade e se deixa levar sem ter qualquer preocupação de que esteja prejudicando terceiros. Usa as mulheres, e Letícia sabe que está sendo usada. Tem uma visão profunda, mesmo tendo pouca idade.
O tempo caminha assim como as águas de um grande rio. Tudo desemboca no grande lago, que todos chamam de oceano. A paixão é assim. Como brasa, no início queima forte e aos poucos vai perdendo o calor e lá na frente, torna-se apenas cinzas, que o vento se encarrega de dissipar pelas montanhas e vales. O amor é diferente. È criado na raiz dos sentimentos humanos. Não morre, viaja através dos tempos, para renascer num outro momento, com outras roupagens, mas o mesmo, como uma vela, que um dia foi apagada num simples sopro, reacendendo no tocar de emoções profundas.
Letícia e Pedro começaram a perceber que era a hora do adeus. Ela tinha convivido com ele quatro anos. Enfrentou a ira e a teimosia dos pais, que não entendiam as razões da relação amorosa. Como filha única, eles acabaram deixando que as nuvens da paixão navegassem pelo universo dela.
O inverno estava batendo à porta. O frio mostrava que desta vez iria trazer neve ao vale das lindas flores. A montanha, repleta de Flores da Serra, iria se tornar uma graciosa e bela copa colorida. Pedro e Letícia tiveram uma conversa definitiva. Ele, com o coração partido, e sentindo que o seu momento de descansar no alto da grande montanha estava chegando, disse a ela:
- Na verdade sempre pensei que nada era eterno entre nós dois. Você me ensinou várias coisas. A principal é que pode existir, sim, sentimento profundo entre um homem e uma mulher e o sexo não é a única vertente num casal.
- Pedro, mesmo sendo mais nova que você, sinto que a minha alma não é nova. Parece que vivi essa experiência, só que desta vez não estou sofrendo, apenas levando comigo os lindos momentos que passamos juntos. Assim, podemos viver tendo como base uma relação que acalentou os nossos corações...
Conversaram bastante. Cada um deixando as emoções do adeus tomar conta das suas almas. No final, Pedro disse à Letícia:
- Amanhã bem cedo gostaria que você viesse aqui em casa. Vai encontrar algo que deixarei para você..
- Venho sim, se é esse o teu pedido...- respondeu Letícia.
No dia seguinte bem cedo, ela se dirigiu à casa de Pedro. Chegando lá, encontrou a porta aberta e um bilhete em cima da mesa, que dizia: “vá ao meu encontro no alto da montanha”...Letícia não entendeu bem, mas foi caminhando até o local...
As Flores da Serra tomavam conta da encantada grande montanha. As águias voavam de um lado para o outro. O perfume da natureza fazia com que os pássaros cantassem as suas mais lindas canções. A raposa cinza estava sentada numa pedra próxima à vertente de um riacho, observando a chegada de Letícia. O frio mostrava as suas garras, fazendo com que as coisas se tornassem mais aconchegantes no interior das cavernas. Num tronco caído de uma canela, ela viu o corpo de Pedro sendo devorado pelas águias.Tentou se aproximar, mas não conseguiu. As águias olharam raivosamente para ela, como dizendo que estavam cumprindo uma profecia e o corpo de Pedro era o alimento.
Em vez do som do violão, ouviam-se os gritos da morte se espalhar pelo vale. A morte veio buscar o homem de pedra, sem coração, o sedutor que jamais teve piedade das mulheres. A morte precisava dele no paraíso da escuridão. Quem sabe nos bailes do inferno, Pedro possa continuar a sua saga, acompanhado das suas amantes infelizes. Com lágrimas nos olhos, Letícia desceu lentamente a montanha sem olhar para trás. Ela foi a última amante de um homem que estava atravessando o vale da vida para entrar no vale da escuridão, do local onde só vivem os seres sem amor e sem perdão. Letícia sabia de quem estava se despedindo... Não se arrependeu de nada, apenas viveu momentos inesquecíveis e que lhe trouxeram belas lições de vida.
Nas longas noites dos invernos seguintes, às vezes Letícia ouvia o som de um violão vindo do alto da montanha. Fechava os olhos deixando que o pensamento viajasse... Quem sabe um dia também venha a se encontrar com Pedro, nas engrenagens do tempo...
sábado, 21 de junho de 2014
Mistério Maldito
Tudo está no lugar, nada foi mexido, somente a poeira está tomando conta. Os móveis permanecem intocados e o assoalho, com uma camada de poeira, espera por uma limpeza que nunca vai acontecer. Os quartos, com as lindas camas, estão arrumados do mesmo jeito como foi deixado. No rastro das lembranças, o ar do tempo assume o controle da casa, que outrora foi a residência da alegria, do vício e de uma estranha felicidade.
Ao passar pela mansão, pintada na cor branca, ninguém entendia os motivos que levaram os moradores a largarem tudo. Desapareceram para sempre, só permaneceu a beleza de uma linda morada. Projeto sonhado, imaginado por todos de uma família esquisita, mas feliz ao seu modo. Hoje, aos poucos, está desaparecendo, jogada nos braços da destruição.
A ação do tempo, a magia das noites e dos dias estão tornando a residência da alegria e das grandes festas, que contagiavam a elite e a cidade inteira, numa mansão da escuridão, talvez de uma podridão eterna. Sem mais nem menos, ela foi abandonada, largada para ser consumida por famílias inteiras de cupins, que trabalham para tornar o belo em coisa feia e melancólica.
Os cristais e louças, importados da Europa, estão na cristaleira, adquirida nas lojas finas da Rússia, esperam para ser usados mais uma vez pelos festeiros da casa. A adega, com seus vinhos finos, comprados na década de 80 nos vinhedos de Portugal e Espanha, não foram consumidos, estão envelhecendo junto com a casa. Ao lado da adega, a grande biblioteca, com três mil livros, todos catalogados por ordem de autor. Ontem, local de reunião e acertos de compra e venda, hoje, ninho de ratos.
Os transeuntes, que às vezes param para observar a lenta agonia da mansão, ouvem vozes, gemidos de sensualidade profunda, gritos e sussurros. Lá de dentro vem um aroma gelado, frio esquisito, que acaba expulsando as pessoas que teimam em tentar entender os motivos de tamanho mistério, ou fazer parte de uma festa das sombras.
As corujas, aves solitárias e protetoras das longas noites escuras, voam de um lado para outro, tentando cuidar do belo jardim, que pouca coisa restou. Mas não adianta, elas sabem e conhecem os motivos do desaparecimento dos proprietários e o porquê do silêncio e da tristeza estarem transformando a linda casa na morada da escuridão
Certo dia, Dário, um senhor com várias dezenas de misteriosa experiência nas costas, parou em frente ao portão da casa, olhou para os lados e disse: nem tudo que brilha aos olhos dos homens reflete a verdade, existe muita coisa feia atrás de um par de olhos ou de uma consciência...
Nesse momento, passou em frente uma jovem, que vendo aquele Senhor parado em frente ao portão perguntou:
- O que o senhor está fazendo parado na frente dessa misteriosa casa?
- Estou pensando... O que levou os moradores dessa bonita mansão desaparecerem tão de repente, deixando tudo para trás. – disse Dário com os seus olhos pretos, que escondiam imagens de um passado vergonhoso, tentando atrair a jovem para seu plano maligno...
- Alguma coisa de estranho deve ter acontecido, porque ninguém deixa alguma coisa de valor e vai embora. – acrescentou a jovem, com imensa vontade de participar de um enredo repleto de magias.
Dário, no fundo, sabia de tudo e tinha um plano, esperado há muito tempo para ser executado. Ele trabalhou na construção da mansão. Conhecia todas as dependências, e sabia que muitas delas, revelava o perfil dos proprietários. Várias vezes perguntava ao mestre de obras por que tantas saídas e entradas secretas, mas nunca obteve resposta. Exceto ele, os demais operários eram colombianos, pessoas que não conversavam, apenas cumpriam ordens. Tinha uma imensa ânsia escondida por trás da sua aparente tranquilidade...
Aos 68 anos de idade, Dário trabalhou a vida inteira em obras e, de todas, a mansão era a mais misteriosa. Em muitas ocasiões recebia bronca por fazer tantas perguntas. Durante todos esses anos viveu com muita dificuldade, passou fome e viu a sua família perecer em corredores de hospitais sem poder fazer nada. Esses acontecimentos tornaram Dário um homem com aparência doce, mas com uma alma dura, igual pedra de fundo de rio.
Já Vera, recém formada em Direito, tinha na essência, veia investigadora. Desde a construção da casa até as grandes festas que os proprietários faziam, muitas perguntas se formavam na mente da jovem. Ela mesma, quando estudante, foi convidada para participar de uma festa na casa. Não aceitou porque uma amiga sua tinha ido numa festa no último ano e fez alguns comentários de que sexo e droga rolaram solto. No fundo, também possuía um intenso desejo de ter dinheiro, casar com um homem rico e poderoso. Não gostava de rezar e muito menos acreditava em Deus, achava isso uma grande perda de tempo.
- Concordo com você. Existem coisas estranhas. Eu procurei saber, mas ninguém quis falar nada. E você, por que está interessada nesse mistério? – perguntou Dário com uma ponta de interesse em colocar logo a jovem no seu plano diabólico.
- Quero seguir a carreira policial, mais precisamente de delegada. Eu sinto no ar que tem algo de errado. Quem sabe seja o meu primeiro trabalho. O futuro a Deus pertence. – revelou Vera, que já estava pensando em adentrar nos portões da casa.
- Parece que você pretende entrar na casa? – perguntou Dário.
- Estou pensando em fazer isso. – respondeu Vera, muito ansiosa.
- Mas não agora. Tem que ser de noite. E se prepare, pois será preciso muita coragem. – ponderou Dário, com profundo interesse em descobrir alguns segredos da casa e pegar algo muito precioso.
- Eu já ouvi falar várias coisas sobre as festas que aconteciam nessa casa. Tenho uma amiga que nunca mais se aprumou na vida. Era uma moça simples, honesta e de caráter, com um lindo corpo, desejada por muitos homens. Hoje vive nas esquinas vendendo o corpo e parece que está metida com drogas e magia negra. Mudou completamente a vida. Tudo aconteceu depois de alguns finais de semana, ao participar de festas a convite de Rodrigo, filho mais velho do proprietário.
- Quem sabe a gente convida ela para nos acompanhar na visita? – perguntou Dário.
- Ela não quer nem ouvir falar na casa branca. Chega a mudar de fisionomia. Vamos deixar assim. Eu e o Senhor vamos fazer a investigação. – ponderou Vera.
Naquela noite não foi possível fazer a visita, pois caiu uma forte chuva com vento. Resolveram ir no sábado à noite. Era vinte horas quando Dário e Vera entraram pelo portão da casa. No momento em que o portão se abriu, um gemido foi ouvido. Vera parou e olhou para Dário, dizendo:
- A coisa vai ficar difícil, temos que ter coragem. – disse Vera, com ar assustado.
- Eu falei para você. É só o começo. – assinalou Dário, demostrando certo receio, mas no fundo já conhecia todos os caminhos das sombras...
Os dois deram uma volta na casa para fazer uma averiguação mais completa. Foi neste instante que o mistério da casa começou a ser mostrado. No fundo do jardim, ao lado da piscina, existia parte de terra remexida, sinal de que ali tinha sido feito um grande buraco. Cada passo que era dado na imensa propriedade, vozes, gemidos e gargalhadas eram ouvidas. O céu estrelado, de repente, ficou sem nenhuma estrela. Ar de tristeza e agonia tomou conta e tanto Vera quanto Dário, por várias vezes, tentaram voltar, mas uma força estranha não deixava. Parece que eles estavam entrando no reino encantado das sombras. Alguma situação estava para acontecer e somente os dois estavam autorizados pelas sombras a continuar o trabalho de investigação.
No final da morada, num canto do terreno, havia uma grande pedra e sobre ela estava uma coruja preta, que com seu canto apontava para o local exato que deveriam cavar. Logo que ficaram de frente com a terra remexida perceberam que ali tinha sido feito um grande buraco.
- O que devemos fazer agora? – perguntou Vera.
- Não sei, mas parece que devemos pegar ferramentas e cavar para saber o que está enterrado. – respondeu Dário, mostrando o tempo todo certo desconhecimento da principal razão de suas buscas.
- Durante duas horas eles cavaram um grande buraco. Para espanto deles, cinco caixões apareceram, sendo dois pequenos e três grandes. Uma dúvida surgiu: chamar a polícia ou continuar a busca. Acontece que, pela lei, eles não poderiam nem ter entrado na propriedade e muito menos fazer escavações.
A noite e o silêncio estavam contribuindo para o trabalho que realizavam. Abriram os caixões e encontraram três corpos de adultos e dois de crianças. Todos tinham sido executados com vários tiros na cabeça. Ao lado do corpo de uma criança tinha uma sacola repleta de dólares. Com isso o mistério aumentou.
- O que vamos fazer agora? Esse dinheiro era dessa família? – questionou Vera, totalmente confusa e amedrontada.
- Primeiro, jamais devemos falar para alguém e segundo, não devemos enterrar o dinheiro. Vamos dividir e colocar terra em cima de tudo. – ponderou Dário, com profunda e incontida alegria, porque seu plano estava sendo executado com inteligência, e ainda usando uma jovem ingênua.
- Então vamos fazer isso e vamos embora. – disse Vera, preocupada com os últimos acontecimentos.
Tudo aconteceu conforme Dário havia idealizado. O mais interessante é que eles nem chegaram a entrar na casa.
O tempo passou, o velho Dário viveu mais uns dez anos, viajando de um lugar para outro com os dólares divididos com Vera.
Já Vera, resolveu guardar o dinheiro. Ela ficou preocupada que alguém viesse atrás dele. A casa continuava se deteriorando.
No inverno seguinte da ida deles à casa, Vera foi novamente ao local e, para sua surpresa, o buraco tinha sido reaberto e os corpos retirados. Alguém esteve lá à procura de alguma coisa. E os corpos? O que foi feito deles? Por esse motivo ela não gastou nenhum tostão. Não falou nada para Dário, porque alguma coisa dizia que ela não deveria lhe falar nada. Os olhos dele estavam sempre olhando para ela. Talvez ele fizesse parte de algum plano mais profundo e misterioso. Viu Dário mudar de vida, comprando roupas novas, viajando, chegou até a arrumar os dentes. De longe viu e de longe permaneceu, deixando que o tempo mexesse no tabuleiro do mistério.
Incrível é que nem mesmo os andarilhos e drogados entravam mais na mansão, todos tinham muito medo. Uma andarilha, numa noite de muita chuva, resolveu dormir na varanda da casa. Pagou para ver.
Os vizinhos, acostumados com o silêncio do local, ouviram gritos de pedido de ajuda e risadas. Era a andarilha, que não conseguia abrir o portão para sair. Só saiu quando a noite foi embora. Segundo testemunhas, a velha andarilha tinha visto várias pessoas sendo executadas por homens de preto, que davam gargalhada a cada tiro que disparavam. Outros, disseram que foram as drogas que criaram imagens distorcidas daquela noite.
Certo dia, depois de alguns anos, já despreocupada, Vera foi surpreendida com alguém batendo a sua porta, perguntando:
- Bom dia! A senhora conhece um senhor chamado Dário?
- Conheço, mas ele faleceu há muito tempo. – respondeu, com voz engasgada e olhos arregalados.
- A Senhora tem certeza? Porque ele guardou algo muito importante para nós. Esse Senhor trabalhou na construção da casa branca e ficou muito amigo do nosso chefe. Era de confiança e chegou a fazer vários trabalhos para nós, inclusive, participou de um trabalho especial lá na casa. Os proprietários da casa tentaram enganar o nosso chefe e aí tivemos que fazer o serviço, tendo Dário como executor.
- É mesmo? Ele parecia uma pessoa tranquila. – acrescentou Vera, com frio na barriga.
- Na aparência, mas no fundo, apesar da idade, Dário era um verdadeiro lobo. Por ser assim que ele adquiriu confiança. Eu vou ficar por aqui algum tempo, até descobrir alguma coisa que leve ao que o Dário guardou. – finalizou, indo embora como uma sombra pela estrada.
A conversa entre Vera e aquele senhor fez com que ela sentasse numa cadeira por um longo tempo. Não estava acreditando na conversa. O velho Dário era aquilo tudo? A conversa daquele homem estranho tinha alguma verdade? Por outro lado, Dário praticamente encaminhou tudo em direção ao fundo do quintal da casa quando fizeram a visita, mas em nenhum momento pensou em entrar, simplesmente foi direto para o local. Parecia que ele sabia o que estava querendo e fazendo.
Aos poucos, Vera foi lembrando da conversa com Dário. Certo momento da remoção da terra, ele disse baixinho: “estamos a procura do tesouro”. Ela fez de conta que não entendeu as palavras e tentou pedir que ele repetisse, mas não obteve resposta. Ao ir para cama, para tentar dormir, Vera começou a elaborar um plano para se livrar do estranho homem. Como ela morava sozinha e ainda possuía alguns requisitos sensuais, poderia atrair o caçador de Dário para sua casa e ali acabar com a vida dele.
No dia seguinte, começou a colocar seu plano em prática. Foi até ao hotel onde estava hospedado o estranho, para convidá-lo a ir em sua casa durante a noite. Vestiu uma saia curta e uma blusa com decote de chamar à atenção, e bateu no apartamento dele.
- Boa noite, senhor! Estou aqui para convidá-lo a ir lá em casa hoje à noite, para conversarmos melhor sobre o Dário. Eu também não sei o seu nome. Eu me chamo Vera...
- Boa noite, Vera! Que bom que você veio, eu estava pensando em dar uma passada na sua casa amanhã de manhã, já que está aqui, aceito o seu convite. Meu nome é Ricardo Dela Rua, moro no Brasil já há algum tempo, mas colombiano de nascimento.
- Combinado! Então esperarei você com um vinho, regado com um bom jantar e outras coisas mais que só vai saber no momento certo... - afirmou Vera, com ar de profunda sensualidade.
Ricardo entendeu tudo. Aquela mulher solitária e carente, queria apenas uma bela noite de amor, sem imaginar o que aconteceria. Na hora marcada, ele bateu à porta, e Vera, totalmente transformada em mulher sedutora, abriu e recebeu Ricardo com um largo sorriso.
Conversaram muito sobre os mais variados assuntos. Entre um assunto e outro, eles se acariciavam, mas Vera sempre segurando para não avançarem demais. Tomaram um litro de vinho. Vera convidou Ricardo para jantar e degustar um filé de peixe com camarão.
- Eu fiz um camarão à milanesa, só que não posso comer, pois me faz muito mal. Esse prato é especial para você. Até porque temos a noite inteira... Não é mesmo, Ricardo?
- É verdade. Estou adorando você e a sua hospitalidade. Você é uma mulher muito linda e sensual... Eu acho que ficarei nessa cidade por mais algum tempo.
- Obrigada pelo elogio e, por mim, você pode ficar quanto tempo quiser.
Eles jantaram à vontade, mas o pior estava por acontecer.
Vera colocou um veneno muito forte no camarão. Ricardo até que tentou sacar uma arma para matá-la, ou sair da casa para procurar ajuda. Não conseguiu, e acabou morrendo sentado no sofá da sala depois de agonizar por um longo tempo.
Vera enrolou o corpo num lençol e carregou até o seu carro, colocando Ricardo no porta-malas.
Enquanto a noite comandava o mundo, a casa assombrada, dominada por seres estranhos, continuava com seus segredos. Vera enterrou Ricardo na mesma vala que anos antes tinha sido cavada para enterrar a família. Antes porém, ela teve o cuidado de colocar gasolina no corpo para que se consumisse totalmente.
Passaram-se dois anos do acontecimento sem que ninguém reclamasse de alguma coisa, ou sobre o desaparecimento de Ricardo. Vera, no entanto, tinha uma última grande ideia. Precisava entrar na casa para fazer uma completa investigação e achar um jeito de transformar a mansão num monte de cinzas.
O verão de 1990, estava iniciando. O mundo estava pegando fogo em todos os lugares, guerras e atentados aconteciam todos os dias. Vera já estava com 40 anos e queria começar a gastar a fortuna que guardara enterrada embaixo da velha figueira no alto do seu terreno. Tinha pressentimento de que lá dentro da casa ainda tinha algum dinheiro.
Antes de colocar seu plano em prática, resolveu fazer uma longa viagem pela Europa, era o sonho que rondava sua imaginação desde jovem. Preparou tudo e embarcou na classe executiva de um avião comercial, sem ter qualquer preocupação em economizar.
Durante trinta dias Vera conheceu praticamente todas as capitais da velha Europa. Comeu do bom e do melhor, comprou roupas e jóias, parece que vivia num paraíso, sem se preocupar com nada. Até teve uma aventura com um italiano de Milão, mas nada que atrapalhasse a sua alegria.
Ao voltar ao Brasil, precisamente para Blumenau, sua terra natal, ela estudou com muito cuidado o plano para entrar na casa. Comprou três galões de gasolina num posto localizado numa cidade vizinha para não deixar pistas.
Já passava da meia-noite quando Vera abriu a porta da moribunda mansão. Cada passo que dava parecia que estava sendo observada por vários olhos negros, que lembravam os olhos de Dário. Os morcegos, alguns dos moradores da casa, ao vê-la entrar, voaram baixinho e desapareceram na escuridão da noite. Os ratos, fizeram a mesma coisa. Todos os moradores da noite sumiram. Parecia até que estavam adivinhando que algo iria acontecer. No final, ficou somente Vera com seus pensamentos sinistros. Abriu peça por peça da casa, vasculhou todos os cantos e recantos. Ao lado da biblioteca, tinha um quadro muito bonito que chamou a atenção dela. Ao mexer nele, percebeu que atrás tinha uma saída para uma pequena abertura. Abriu uma pequena trava e para seu espanto, apareceu na sua frente uma pasta preta. Pegou-a e sentou-se numa cadeira. Sem dificuldade abriu a mesma, que estava cheia de dólares.
Com imensa alegria, fechou a pasta e colocou em cima do sofá. Jogou gasolina em toda a casa. Neste momento, percebeu alguém chamando por ela. Os olhos negros do velho Dário não paravam de fitá-la, com extrema raiva. Não deu ouvidos e pensou: ”Você já morreu, velho safado!”
Antes de riscar o fósforo, pegou a pasta repleta da famosa moeda verde, segurando firme na mão. Sem cerimônia, colocou fogo na gasolina espalhada no quarto de casal. Em seguida, caminhou sem olhar para trás e foi em direção à saída. Tentou abrir a maçaneta da porta, mas não conseguiu. A maçaneta tinha sido feita para ser aberta por dentro somente com chave. Como ela não tinha...
Enquanto isso, o fogo ia se espalhando por todas as dependências da residência. Vera gritou....berrou....uivou, mas ninguém ouviu. Pediu ajuda...socorro aos infernos e nada! Queimou junto com os dólares. Quando o dia amanheceu, somente um monte de cinzas aparecia no lugar da mansão, residência da sombra e de criaturas duras e sem alma..
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Presente Sideral
Estou muito longe/
Num lugar que você não conhece/
Perto dos teus sonhos e imaginações/
Vizinho do paraíso/
Onde o sol vai embora/
Somente quando o sono chega/
A luz nos alimenta/
As visitas que recebo/
São de criaturas/
Que se afinizam com as/
Minhas energias/
Tudo tem sintonia.../
Só acontece a chegada da noite/
Quando a lua e as estrelas/
Querem conversar com os/
Viajantes siderais/
E iluminar as matas/
E os rios do nosso mundo/
Aqui tudo é bonito.../
Em cada canto tem um jardim/
Cada jardim tem flores e rosas/
Para o gosto de cada visitante/
O tempo tem o seu próprio relógio/
Muito diferente do teu mundo/
Os ponteiros só batem quando/
As tarefas terminam/
Os calendários não obedecem/
As emoções/
Fazem parte de uma cronologia/
Do Comando Superior do Universo/
Tudo é perfeito/
Com suas razões para acontecer/
Nada acontece sem permissão/
A Terra está muito distante daqui/
Em todos os sentidos/
Nós não nos alimentamos de/
Nossos irmãos animais/
A alimentação é plasmada/
As doenças foram banidas/
Somos o que pensamos/
Vivemos de acordo com a/
Nossa evolução/
Os vícios de toda ordem/
Sentimentos e energias ruins/
Fazem parte do passado/
Participamos de um mundo/
Onde as energias benéficas/
Estão espalhadas por toda parte/
E cada um tem a parte/
Que merece e necessita/
Para viver/
Mas para chegar aonde estamos/
Foi necessário caminhar/
Por diversos mundos/
Inclusive na Terra/
Conhecemos o estágio/
Evolutivo dos habitantes do teu mundo/
Mundo que um dia será igual ao nosso/
Estamos acompanhando os teus passos/
Acreditamos na linda jornada/
Que estais efetuando/
Como todo bom corredor que és/
Vais chegar muito bem/
No final da corrida.../
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Magia das Letras
Por que sou poeta?/
Porque renasci para fazer/
Da palavra o caminho/
Da liberdade/
Onde os amantes solitários/
Encontram o canto da salvação/
Sou poeta porque encontro na rima/
A visão de um mundo repleto/
De dança e alegria/
Onde os dançarinos marcam/
Os compassos da valsa da paixão/
Por que sou poeta?/
Porque acredito que é melhor cantar/
Para a humanidade ouvir/
Que matar inocentes/
Que vieram ao mundo para ouvir/
A palavra mágica dos cantadores/
Que nas noites de lua cheia/
Sentam na varanda da casa/
Para ouvir as canções/
Por que sou poeta?/
Porque nos finais de tarde/
Quando os passarinhos se recolhem/
Para sonhar com o paraíso/
É o momento do canto/
É o instante do verso/
É a hora que a alma/
Chora de saudade de outros tempos/
É o minuto que o coração/
Relembra as paixões que ficaram/
Ao longo da estrada/
De nossas mágicas vidas.../
Por que sou poeta?/
Porque prefiro fazer da palavra/
Uma nova direção/
Aos descrentes de plantão/
Que fazer das letras/
Desgraça entre os seres humanos/
É preferível usar os versos/
Para o bem e a alegria de todos/
Que sair por aí/
Difamando pessoas honestas e bondosas.../
Por que sou poeta?/
Entre tantas respostas/
Que se apresentam.../
Acho que ser poeta/
É escrever para as almas/
É tentar mostrar as belezas do mundo/
Alegrar os amantes/
E dançarinos.../
É mostrar aos humilhados e sofridos/
Que apesar da escuridão das longas noites/
De fome e de frio.../
Que apesar das desgraças/
Que se abatem/
Onde milhares de crianças/
Morrem desnutridas.../
Que apesar de todos os ventos e sofrimentos
Enfim que apesar de tudo/
Vale a pena viver/
Vale a pena fazer parte/
De uma vida/
Porque a vida é uma obra de arte/
Que todos os dias pintamos uma parte/
Passando uma pincelada aqui/
Outra ali.../
Às vezes forte/
Outras vezes suave/
Como uma pena.../
No final.../
Nos braços do Patrão do Céu/
E ao lado dos caminhantes/
Rever a nossa grandiosa obra/
Exposta no museu da eternidade.../
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Esquina
Todos nós temos um momento/
Aquela hora em que a esquina da vida/
Se apresenta.../
É quando temos somente duas escolhas/
Porque não podemos abraçar as duas/
Muito menos/
Se lá na frente /
Acontecer o arrependimento/
Porque a vida é feita de escolha/
Escolha que às vezes arde o coração/
Maltrata a alma.../
A caminho da estrada/
Da estrada escolhida/
Mesmo esburacada/
Não será possível voltar atrás/
Somente enxugar as lágrimas/
Limpar os ferimentos dos pés/
Conviver com a saudade da escolha rejeitada/
É nesse instante que o ser humano/
Se atrapalha/
Perde a noção da vida/
Embaralha derrota com vitória/
Porque tudo é uma grande história/
Que necessitamos construir/
Mesmo que às vezes pensamos descontruir/
Portanto.../
Jamais devemos julgar/
Aqueles que fizeram uma escolha/
Isso porque no momento da decisão/
Estávamos sentados na arquibancada da vida/
Vendo a luta ser travada.../
Comprovado o rumo/
Voltamos para a nossa renhida luta/
Assim vamos vivendo/
Entre acertos e erros/
Entre escolhas certas/
Erradas escolhas.../
Nesse emaranhado de escolhas/
Tem gente/
Que fica sentada na esquina/
Sem tomar nenhuma decisão/
Vendo o tempo passar/
Ali permanece.../
Enquanto os outros/
Decidem seus futuros/
Nas mãos da história/
Outras vezes na contramão da história/
Mas vão.../
Caminham.../
Quase sempre tropeçam/
Nas armadilhas feitas pelos lobos/
Travestidos de carneiro.../
Com o corpo ensanguentado/
Mente confusa/
Lágrimas escorrendo/
Nos rostos cansados de tanto caminhar/
O ser humano avança/
Para construir uma nova morada/
Uma estrada longa e larga/
Mas perfeita para o seu andar/
Lá na frente/
Defronte à cachoeira de águas limpas/
Depois das lutas realizadas/
Será o momento do descanso/
Não aquele descanso eterno/
Simplesmente parar/
Para admirar os campos de batalha/
Perdidas e vencidas/
É nesta hora/
Que o ser humano precisa/
Com humildade/
Guardar as armas/
Enrolar as bandeiras/
Esquecer os inimigos/
Convidá-los para participar/
Da grande obra/
Da reconstrução universal.../
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NÃO VOU ADORMECER SEM DEGUSTAR OS MEUS SONHOS
Ninguém prende um pensamento. Ninguém aprisiona uma alma ou um coração. O amor é livre e o gostar caminha junto com a liberdade. O desejo ...
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Vou seguir o teu perfume/Perfume que me enfeitiçou/Seguirei o teu aroma/aroma dos campos, montanhas, mares, rios e planícies/Vou seguir ...
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Ninguém prende um pensamento. Ninguém aprisiona uma alma ou um coração. O amor é livre e o gostar caminha junto com a liberdade. O desejo ...
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Despontava a madrugada/A lua clareava a sombra nos recantos da Terra/Quando fui levado para conversar/Sentei num ba...