quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Así se Baila el Chamamé

De canto a canto de um salão...A gaita chama e o gaiteiro grita...O casal dança chamamé num bailado encantado...Tudo em volta gira...O salão fica pequeno para que o chamamé seja evidenciado...A beleza da dança está na forma que o casal expressa o sentimento corporal...O resto não é dança é lambança de passos truncados...É preciso deixar de lado os olhares da plateia para focar os passos e os compassos dos corpos em movimento...A sensualidade do chamamé vem de longe... Onde os deuses da dança nasceram...De lá pra cá o chamamé direciona o ponto central de um baile...Porque asi se baila el chamamé nos pampas portenhos...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Minha Alma Está Enterrada na Curva do Rio

Ao atravessar o rio não tenha saudade...Deixe que as águas levem as emoções...Olhe o teu jardim que a cada dia está mais florido...A alma de um poeta é como um jardim...A cada dia que passa encanta cada vez mais...Porque é abençoado pelo Universo...Ele é como um barquinho...Deixa ser levado pelas águas de um rio caudaloso...O poeta é também um instrumento musical que os anjos utilizam para cuidar das almas em tratamento...Ele sempre esta afinado com os mestres do céu...

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A Chuva

Dia de chuva...É quando lemos as cartas guardadas dentro do coração...A chuva deixa a pessoa introspectiva...Somos levados ao mundo que um dia foi criado por nós...Em momento que a nossa vida era uma eterna primavera...Cada gota de chuva que cai no telhado é o som da saudade que respinga nas emoções...Na estrada que caminhamos...Tudo encontramos e tudo passa por mais escura que seja a noite...A chuva também tem o seu momento de chegar e ir embora...

domingo, 14 de setembro de 2014

Roupagem da Alma

Entre o lago e o mar, construiu uma casinha de madeira com capricho e amor. Em volta dela, plantou um imenso campo de girassol, tornando a paisagem deslumbrante e ao mesmo tempo, repleta de uma magia transcendental. Quando o vento soprava do norte, os girassóis faziam um bailado, jogando o aroma para as planícies e vales da região. Ao amanhecer, os raios do sol se confundiam com as imagens da plantação de girassol, e no meio passava um pequeno rio, que desembocava num lago, tornando a paisagem ainda mais linda e aconchegante. Distante da cidade e perto da natureza aceitou viver e aprender as lições da solidão e da saudade. Para uns, Mané era um caboclo destinado a morrer agarrado às coisas do sertão e para outros, não passava de um nômade fugindo do progresso ou de um grande problema nunca revelado. Entre uma opinião e outra, na verdade, ele era uma pessoa feliz, porque entendia a razão e os motivos da sua situação, não reclamando dos infortúnios. Nessa bucólica paisagem, morava Mané, refugiado da vida, que escolheu um recanto para viver. Ele guardava no coração passagens vividas, quase sempre como protagonista. A vida para Mané não foi nada boa, fez dele um laboratório, onde as experiências eram colocadas em prática, sem piedade. Mesmo assim, nunca se importou com as dificuldades, fez das mesmas, escola de aprendizagem. De tudo que passou, nunca reclamou, sempre teve senso de humor, ria dos problemas e continuava vivendo, sempre acreditando que um dia tudo iria mudar. Tinha claro na mente, que alguma coisa sempre tem sentido nas ondas do destino. Nunca teve sorte com mulher, talvez pela sua aparência física, um pouco desajeitada. Mané, em alguns momentos, até achava engraçada a sua situação. Nas noites de lua cheia, Mané pegava a gaita de boca e tocava melodias caboclas, que aprendeu quando era moço lá na sua terra natal. As estrelas, com o brilho cintilante, jogavam raios de luz sobre o seu rancho, que numa mágica serenata, atraía os pirilampos. Parecia um mundo criado para acalentar a sua alma. Muitas vezes adormecia sentado na varanda, quase sempre acompanhado pelo olhar sereno da lua... Depois de um sono repleto de sonhos, acordava cedo, ligava o radinho para ouvir os clássicos caipiras e, junto com os raios do sol, pegava a enxada para trabalhar no campo de girassol. Criava algumas galinhas e patos e, junto com eles, formava a sua família. Com barba longa, pele morena e massacrada pelo tempo, Mané tinha as mãos cheias de calos, porque trabalhou a vida inteira no pesado. Ao dormir conversava com o Pai do Céu, agradecendo o dia, a saúde e acima de tudo, a vida. Era figura serena, bondosa e alegre, que atraía imagens e energias de pura tolerância. Com essas qualidades, Mané tornou-se o conselheiro da região e do campo. Todos gostavam de conversar com ele nos finais de tarde, na frente da sua casinha simples e ao mesmo tempo protegida pelas energias benéficas do universo. Era uma casa abençoada, onde a natureza se curvava pela simplicidade que irradiava do campo de girassol. Nas janelas da casa, colocou floreiras de gerânios de todas as cores, que mostrava a beleza em sua plenitude. O sol, depois de iluminar os homens na Terra, estava se preparando para ir embora, quando Mané recebeu uma visita inesperada. Era o Padre José, que estava em frente a sua casinha e queria conversar com ele, para pedir alguns conselhos. - Boa tarde, Mané! Desculpe por não ter avisado que viria, mas preciso da tua ajuda. – disse o Padre. - Boa tarde, Padre! Que bom receber a visita do Senhor na minha casa. Não tenho muita coisa para oferecer, a não ser a minha companhia e amizade. – avisou Mané. - Bondoso Mané, você tem a maior riqueza do mundo, que poucos têm. É o tesouro da bondade e do amor ao próximo; coisas que eu nunca consegui ter, mesmo falando em Deus em todos os momentos. – revelou o Padre José, feliz por estar conversando com Mané. - O Senhor é uma pessoa boa e vive dentro da casa de Deus, enquanto eu vivo distante, sozinho, sem nunca ter colocado o pé numa igreja ou em outro templo. – disse Mané, tentando se desculpar por nunca ter assistido missa. - Mané, escute! Tem gente que não sai da igreja, mas vive fazendo mal para os outros e com ódio no coração. São os lobos com pele de cordeiro, como dizia Jesus. – revelou o Padre José. - O Senhor acha? Será que tem gente assim? – questionou Mané, surpreso com a declaração do Padre. - Tem sim, Mané. Usam o nome de Deus para prejudicar os outros. Muitas guerras são e foram feitas em nome de Deus. Às vezes, acredito que o mais importante na vida é a prática. – explicou o Padre. - Tudo bem, quem sabe eles estejam plantando, para colher um dia. Eu acho que Deus não precisa de nós, mas nós precisamos Dele, porque foi Ele que nos criou. – disse Mané, com fisionomia serena e brilho nos olhos. - Concordo com você. São essas compreensões que eu ainda não tenho, por mais que faça oração todos os dias. Não consigo entender o comportamento humano. Por isso eu vim aqui para pedir a tua ajuda. Preciso dos teus conselhos. – assinalou o Padre. - Pode falar Padre, estou a tua disposição. Se puder ajudar, ficarei feliz. – respondeu Mané. - Eu sou Padre há mais de 30 anos e sempre procurei ajudar os outros, sem olhar a quem. Para mim, todos são filhos de Deus. Acontece que na semana passada, o Coronel Vidal veio me procurar dizendo que eu estava proibido de aceitar as prostitutas na Igreja, porque são filhas do demônio. Ele afirmou que se eu aceitá-las irá conversar com o Bispo para me tirar da Paróquia. Tentei convencê-lo do contrário, mas nada adiantou, inclusive, me ameaçou dizendo que os seus comparsas poderiam fazer uma visita surpresa na calada da noite. Desde aquele dia eu não consigo dormir. Qualquer barulho penso que são eles que estão vindo para me matar. Aí veio uma voz ao meu ouvido, dizendo que eu lhe visitasse. O que você me diz? – perguntou Padre José, com ar de amargura, medo e insegurança. - Meu amigo, não conheço nada de religião e nunca li coisa alguma a respeito da vida de Jesus Cristo. A única coisa que aprendi, na escola primária, foi que Ele foi morto pelos romanos, porque pregava o amor, o perdão e a tolerância entre os homens. O Coronel Vidal, para mim, está sendo igual aos romanos, quer comandar a vida dos outros, tirar a liberdade e não deixar que todos assistam à missa aos domingos. Não tenha medo, você tem o exemplo de Jesus. Quem sabe é o momento de você provar a sua fé. Não só aceite as ditas “mulheres da vida” na missa, como dê hóstia e faça a confissão. Assim, você estará mostrando que Deus é de todos e não dos poderosos. E ainda, um dia será recebido pelas mãos do Pai Eterno. – mostrou Mané, com profundo pensamento no infinito... - Se eu fizer isso o Coronel vai me matar. – disse o Padre, com muito medo. - O Senhor tem medo da morte? – perguntou Mané. - A morte é o fim de tudo e me parece ser um túnel escuro. As religiões fizeram da morte um grande tormento. – respondeu o Padre. - Eu acho que não. Talvez seja uma ponte, uma travessia, um sonho, que nos leva para outro mundo. Às vezes sonho que a vida continua e que aqui nada mais é do que uma escola. O importante é estar de bem com Deus e Jesus. – mostrou Mané, com profunda certeza do que dizia. - Está vendo? Não sei de onde você tira essas ideias. Lindas palavras, com profundo sentido. Eu também, às vezes, no momento de oração, sinto que realmente a morte é uma travessia... – lembrou o missionário, abrindo o coração ao seu amigo Mané. - Que bom que o Senhor pensa assim. Acho que tudo tem um sentido e uma lógica na vida. Isso não importa de onde venha e de quem esteja mandando, porque as coisas de Deus são diferentes, serenas e eternas. – disse Mané. - Quem sabe você conversa com o coronel Vidal. Ele tem uma grande admiração por você. Ele mesmo me disse certo dia. – ponderou o Padre. Mané, caboclo do interior, sem nenhuma instrução, mas com uma sabedoria extraordinária, aceitou o desafio para conversar com o Coronel. Alguma coisa lhe dizia da importância de ir à casa do Coronel, pois o momento era aquele. A sua alma sempre apontou na direção de uma conversa que iria mudar muita coisa na vida do Vidal e da sua filha. O coronel Vidal morava numa linda casa, nos fundos de um grande lago. Dali, com seus empregados, comandava a politica do Estado, sem nenhuma compaixão. Tudo tinha que ser de acordo com a sua vontade e de mais ninguém. Era temido até mesmo pelos seus amigos mais próximos. Era acostumado a bater e humilhar as mulheres, assim como as pessoas humildes. A primavera estava chegando e Mané admirava a plantação de girassol, regando todos os dias, pois há um bom tempo não chovia. Ao olhar para o lago, viu que vinham em sua direção, três cavaleiros. Quando se aproximaram, percebeu que um deles era o Coronel Vidal. Largou as ferramentas e ficou aguardando a chegada dos visitantes. - Boa tarde, Mané! Como tem passado? Está bonita a tua plantação de girassol. Toda vez que venho aqui, parece que estou entrando no paraíso, se é que existe. – revelou o Coronel Vidal, com alegria em estar envolvido no aroma do campo de girassóis. - Boa tarde, Coronel. Estava pensando no senhor agora mesmo. – respondeu Mané. - É mesmo? – perguntou o Coronel Vidal, surpreso com a declaração do caboclo Mané. - Então, as nossas vontades se uniram. Eu também preciso dar uma prosa com você. Gostaria que conversasse com o Padre José, para que ele não aceite as prostitutas na missa de domingo. É o dia que todas as famílias se encontram e não fica bem que essas filhas do demônio sejam recebidas na casa de Deus. – disse o Coronel Vidal, com ar de arrogância e mágoa. - Coronel Vidal, escute uma coisa: eu não sou ninguém, apenas um simples caboclo, que não entende nada das coisas da igreja e da religião, mas acho que Deus é pai de todos e não faz distinção. - Entende sim. Você tem sabedoria que poucos têm. Eu sei que você é ignorante nas leis dos homens, mas inteligente no conhecimento da vida. E não se faça de desentendido, porque eu já sei que o Padre esteve aqui na semana passada para pedir conselhos. – afirmou o Coronel Vidal, com olhos de tigre nervoso. - Coronel, ele esteve aqui sim, e pediu para que eu conversasse com o senhor para convencê-lo em aceitar as “mulheres da vida” na Igreja. Eu disse que iria conversar, mas o senhor acabou vindo antes. – ponderou Mané, com tranquilidade. - Nem tente me convencer, porque eu já não estou gostando do início da nossa prosa. Eu não quero ser convencido. Estou determinando! – disse o Coronel, falando alto. - Coronel, sente aqui nesse banco e vamos conversar com tranquilidade. Com uma boa conversa tudo se resolve. Tire o ódio do coração. Olhe o mundo com amor, veja as pessoas como irmãs e não como inimigas. – mostrou Mané, com imensa serenidade. - Eu até sento, porque gosto do teu jeito. É diferente, mas às vezes esquisito, mas me deixa calmo. Você tem uma forma que mexe muito com o meu coração. Não consigo ficar com raiva. – disse o Coronel Vidal, demonstrando que estava diante de alguém muito superior. - Primeiro, me diga, porque tem tanto ódio contra as pobres mulheres? – perguntou Mané. Nesse momento o ambiente se tornou mágico. O Coronel, antes autoritário, aceitou sentar-se no banco. O céu se tornou azul, sem nenhuma nuvem escura, e os pássaros ficaram em silêncio, como se estivessem querendo ouvir a conversa. A garça embalou um belo bailado no lago, tudo para tornar o momento de embriagante magia espiritual. - Eu vou responder a você. Não revele nada para ninguém da nossa conversa. Leve para o túmulo as coisas que vou dizer. Eu guardo um profundo remorso no coração. Faz cinco anos que a minha única filha resolveu se entregar para um negro, descendente de escravos. Engravidou dele. Não tive alternativa a não ser matar o negro e o filho que a minha filha tinha parido. Ela ficou profundamente raivosa e resolveu me enfrentar. Peguei o cinto e dei-lhe uma grande surra. No outro dia, ela desapareceu. Mais tarde, fiquei sabendo que ela é uma das prostitutas da cidade. A vergonha e o ódio são grandes. Pensei em matá-la, mas não tive coragem. – relatou o Coronel Vidal, com o coração estraçalhado. - Depois do erro, não adianta lamentar. Agora é preciso que o Coronel se perdoe, depois peça perdão a Deus e que Ele lhe dê uma segunda chance. – afirmou Mané. - Jamais irei fazer isso. E sou o Coronel Vidal! – disse o Coronel, mostrando os últimos resquícios de prepotência. - Todos nós somos filhos de Deus, tanto o negro que você mandou matar, que era o grande amor da filha que você jogou na perdição, como o seu neto, filho do negro e da tua filha, que você também mandou matar. – exemplificou Mané. Na medida em que a conversa ia avançando, o Coronel Vidal ia demonstrando que tinha algo de bom no fundo do coração. - Sabe, Mané, eu tenho outros segredos. Já que estamos conversando, vou contar outra coisa horrível que fiz e que até hoje me arrependo profundamente. Eu estou com 60 anos e tinha outro irmão, que se chamava Paulo José, e acredito que deve ter hoje 45 a 50 anos. O meu pai faleceu e colocou a maioria dos bens em nome dele e pouca coisa em meu nome. Não aceitei o testamento. Falei com Miguel, meu capanga, e ele montou uma emboscada para assassinar meu irmão e com isso toda a herança iria ficar para mim. Certa noite, quando Paulo José vinha da igreja, Miguel se aproximou dele para disparar o revólver e não conseguiu. Segundo me disse, um clarão apareceu na sua frente, fazendo com que os seus olhos fechassem de repente. Depois do episódio, nunca mais vi Paulo José, a não ser nos sonhos, onde aparece sorrindo, dizendo que me perdoa. - E você, não tentou encontrá-lo? – perguntou Mané. - Eu não teria coragem. A consciência pesa. – respondeu o Coronel. - Mesmo assim, você continua praticando erros, sem nunca mudar. Acredito que você ainda tem tempo para rever a filha e procurar o teu irmão. – mostrou Mané. - A minha filha vive na prostituição. Deve ter muita raiva de mim. Depois, não levaria ela para morar comigo. – ponderou o Coronel, já com o coração mais leve. - Impossível não é, desde que você os procure e peça perdão. – disse Mané. - Você vai me ajudar a resolver essa questão? – perguntou o Coronel Vidal. - Não sei. Preciso pensar, por que afinal, quem sou eu, para servir de ponte entre você e a sua filha? - Converse primeiro com o Padre José. Ele é uma pessoa boa. – assinalou Mané. - Engraçado, Mané, parece que conheço o Padre há muito tempo. Às vezes fico pensando e algumas imagens aparecem. Talvez seja a minha consciência que esteja reagindo. – revelou o Coronel Vidal, perdido no tempo. - Então, quem sabe não seja a oportunidade de aprofundar o conhecimento, ou até mesmo descobrir essas impressões? – revelou Mané. - Tenho medo e vergonha, fiz ameaças a ele. – lembrou o Coronel Vidal. - Não se preocupe, Coronel, quando a gente tem boa vontade para resolver algum problema que aflija a alma, os anjos ajudam. – disse Mané, mostrando ao Coronel que tudo é possível no reencontro das almas. Na simplicidade em que vivia Mané, de repente se via diante de uma situação de profundo conflito familiar. Numa conversa franca com o Coronel Vidal, mostrou da importância da conciliação e do perdão. Já o Coronel, após esse diálogo, sentiu no fundo do coração, que o caboclo Mané tinha razão e era o momento de procurar o Padre e sua amada filha. Não podia adiar mais, precisava ir ao encontro do Padre, e foi o que ele fez. - Boa tarde, Padre. Como vai o Senhor? – cumprimentou o Coronel. - Boa tarde, Coronel! Eu não tenho boas notícias para o senhor. – respondeu o Padre. - Padre, eu vim em paz, preciso pedir perdão. Desde que o Senhor veio para esta paróquia, sempre o ameacei. Eu não sei qual o motivo do ódio. Depois de uma conversa com o caboclo Mané, minha visão da vida mudou radicalmente. – revelou o coronel Vidal. - Coronel Vidal, fico profundamente feliz com a sua vinda. Sempre esperei por esse momento. – revelou o Padre, com lágrimas nos olhos. - Por que sempre esperou por esse momento? – perguntou o Coronel, bastante surpreso. - Coronel Vidal, eu uso barba desde que entrei no Seminário. Há muito tempo que perdoei você. Na verdade, eu sou o teu irmão Paulo José, que um dia você mandou matar. Naquele dia que o capanga Miguel fez a emboscada, estava indo à tua casa, para informar que estava liberando a herança para você. Eu fiz opção pelo caminho de Deus. Não preciso de riqueza. Mas você se adiantou e tentou me assassinar. Depois daquele dia, fui embora para nunca mais voltar. Nas noites de lua cheia e o céu estrelado, quando colocava a cabeça no travesseiro para dormir, pedia a Deus que cuidasse de você, meu amado irmão. Eu estou te perdoando. Agora temos uma família. Falta mais uma coisa que precisamos resolver, para que tudo seja realmente divino. – revelou o padre José. O Coronel Vidal, não suportando a emoção, caiu de joelhos. Ali, no chão, pediu perdão a Deus e ao seu irmão. A vida dá suas voltas e o Pai Eterno conhece o momento dos reencontros de almas, que num passado se desviaram do amor. É a plenitude da paz, do amor e do perdão, que Deus promove aos seus filhos. - Por favor, meu irmão, me perdoe! O que devo fazer para que você me perdoe? – indagou o coronel Vidal, de joelhos no chão e chorando como criança. - Vamos juntos resgatar Justine da vida que leva. Vamos trazê-la para junto de nós. Assim, estaremos montando uma família, que um dia foi destruída pelo orgulho e pela ganância. - concluiu o Padre José. - É isso que mais quero nesse momento. Preciso do amor de Justine. A minha filha amada, que ainda me lembro de quando ela era pequena quando sentava no meu colo, ficava olhando a boiada passar e nos domingos à tarde saíamos para passear nos campos. Tenho imensa saudade daquele tempo. Sabe, meu irmão, lembro também dos dias que brincávamos nos riachos das nossas terras. – disse o coronel Vidal, que naquele momento, parecia outra pessoa, com a alma mais leve e feliz. A vida na prostituição, no tempo dos coronéis, era profundamente cruel. Justine ainda mantinha a beleza de uma mulher nova e com cabelos loiros, pele branca, olhos verdes, voz suave; era a predileta dos homens ricos do interior. Desde que veio para a prostituição, guardava na alma a mágoa pelo que o Coronel Vidal, seu pai, havia feito. Ainda mais que matou seu amor e seu filho... Nunca iria perdoá-lo pelo que fez, desgraçando a sua vida. O sol ainda não tinha ido embora, a noite já jogava os raios de escuridão, Justine estava se preparando para mais uma noitada. De repente, ouviu duas batidas na porta do seu quarto. Abriu a porta para dar uma bronca, pois não estava na hora de trabalhar. - O que vocês querem aqui? Saiam da minha frente. Não quero ver aquele que desgraçou a minha vida. – determinou Justine com raiva. - Justine, minha amada filha, eu vim até aqui para pedir o teu perdão. Não vou embora sem que você me perdoe. – afirmou o Coronel Vidal. - Jamais darei o meu perdão. E você, padre, outro que odeio. Proibiu-me de assistir à missa, obedecendo às ordens desse assassino. Saiam os dois, ou chamarei os donos dessa casa maldita. – esbravejou Justine, com profunda revolta. Enquanto acontecia o áspero diálogo entre pai e filha, Mané caminhava na direção do quarto de Justine. Com sua energia de paz, se aproximou e disse: - Justine, como vai você? – cumprimentou Mané. - Agora estou bem, Mané, com a tua chegada. Estou tentando mandar embora esses dois canalhas do meu quarto. - Escute Justine. Você tem toda a razão do mundo para sentir e pensar assim do teu pai. Ele foi conversar comigo, para que eu intercedesse junto ao Padre, para proibir a presença das mulheres da vida na missa. Depois de uma longa conversa, mostrei a ele a necessidade do perdão entre vocês. Ele procurou o Padre José para pedir perdão, pois, na verdade, Justine, o Padre é irmão do teu pai e, portanto, teu tio. Eu sei que você tem um coração bom e vai aceitar o perdão do teu pai. Justine, aos poucos foi mudando a fisionomia. Estava cansada da vida que levava, sendo explorada de todas as maneiras. Sempre, antes de dormir, pedia ajuda aos céus para que ajudasse a mudar a sua vida. O seu amigo Mané sempre falou da importância da reconciliação entre os inimigos. De repente, abaixou a cabeça e disse: - Mané, meu amigo, eu me lembro da nossa conversa no natal passado. Você veio me procurar e nós dois fizemos uma linda ceia, onde trocamos um monte de conversa. Foi o natal mais lindo da minha vida. Você disse que um dia o meu pai iria me procurar para pedir perdão. – revelou Justine, mais calma, já com o coração mais aliviado. - Então, minha amiga, ouça esse caboclo simples. Abrace o teu pai e o teu tio. Construam uma linda família, onde o Pai Eterno se faça presente em todos os momentos. – conclamou Mané, com brilho nos olhos. Ali, na presença de energia do universo, pai, filha e tio se abraçaram longamente e deram adeus ao ódio, à vingança e à intolerância. Justine, a partir daquela noite, não mais dormiu na boate, foi dormir na sua casa, no mesmo quarto onde vivia. O padre José foi transferido para outra paróquia, e nos natais vem ao encontro de Justine e do coronel Vidal. Mané continuou sua vida simples, cuidando do campo de girassóis, até que numa noite de uma linda primavera, foi morar na eternidade, deixando muita saudade aos que conviveram com ele. Muita coisa mudou na vida dessas pessoas. O tempo passou, muitas noites esconderam o sol, expondo a lua. O coronel Vidal morreu num domingo de chuva, deixando a riqueza para Justine administrar. Lá, no outro lado do tempo, Mané esperava pelo Coronel, para fazer-lhe uma grande revelação. Em algum lugar do passado, o Coronel foi seu filho, que num momento de raiva, tirou-lhe a vida. A motivação foi riqueza, terra e dinheiro. Depois de ter assassinado o pai, matou também, sem piedade, a sua mãe, que nesta vida era a própria Justine. Mané veio para mostrar ao coronel Vidal, que tudo passa e que é fundamental o perdão e a reconciliação. Assim, o crescimento espiritual acontece, mesmo que sejamos cruéis e descrentes. No emaranhado das vidas, temos muitas coisas em comum e nada é por acaso. Hoje, pai, mãe, irmão, irmã, em outras existências com roupagens diferentes, mas sempre o mesmo espirito. Pela Bondade Divina, temos oportunidades de seguir em frente, amando e sendo amados, perdoando e sendo perdoados. São os laços existenciais determinando os destinos das almas.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Lágrimas do Céu

O céu está triste.../E o coração do Poeta aperta cada vez mais.../As nuvens da beleza não escurecem mais a terra onde mora os lindos amores.../No final da longa estrada dois corações se despedem.../Um dia irão se encontrar/Até lá, as lágrimas do céu cairão para refrescar a imensa saudade dos amantes.../Os anjos tocarão lindas melodias para acalmar os corações dos apaixonados.../Não lamente a despedida.../Porque o amor nunca morre...ele é eterno.../Jamais esquecerei o sabor dos teus beijos.../Se viajar antes de mim...me espere na estação da eternidade...

segunda-feira, 14 de julho de 2014

PAIXÕES DE HELENA

Nos confins do pensamento de Helena tudo tinha sentido, exceto os últimos acontecimentos, que aconteceram sem dar tempo para que ela pensasse numa saída honrosa. Até então tudo parecia tranquilo. Até mesmo o tempo estava contribuindo, o sol brilhava depois de duas semanas de chuva e a noite brilhava com a presença da lua cheia e as estrelas cintilavam no firmamento. Há momentos em que a vida é igual a uma longa estrada, sem curva perigosa. Quando acostuma-se com a calma, essa mesma estrada, antes tranquila torna-se traiçoeira. Foi um grande temporal e desmontou as emoções de alegrias, transformando-se em decepção e lágrimas. Quando se pensa que a felicidade existe, ela sinaliza que não. As duas paixões de sua vida viraram dois tormentos. A imagem a sua frente virou um tango triste, uma melodia que cortava o coração. Estavam no chão, as paixões que lhe deram momentos inesquecíveis. Dançarina de boate, durante a noite ela procurava viver a vida de acordo com o momento. Mas com os acontecimentos, a sua vida se transformou num profundo desastre sentimental. Desde os 15 anos, Helena trabalhava de noite e dormia de dia. Aprendeu a dançar tango com Camorra, dançarino argentino, em Buenos Aires. Foi ele que ensinou a arte da dança e da sensualidade, nos salões da capital argentina. Nesse período, foi amante dele e de seus amigos. Isso porque ela era dividida com os demais dançarinos de tango. Sempre depois das apresentações nos teatros, Helena e Camarro iam beber nos cabarés e depois acabavam a noite fazendo amor de todas as formas. Quando a rotina ficava muito tediosa, eles traziam o professor Marco Antônio para brincar de sexo a três. Helena, linda, magra, morena, olhos pretos, lábios carnudos, sabia os passos do tango, jamais errava um passo. Já Camarro, quando bebia demais, os passos se misturavam, dando a impressão que ia cair. Mas ela, conseguia fazer do erro um acerto com suas coxas sendo expostas aos olhos dos clientes. Muitos esperavam por esse momento, porque não era somente as lindas pernas que ela exibia e sim as partes intimas, pois não gostava de usar calcinha e nos giros dos pés, ao som de “Por Una Cabeza”, de Carlos Gardel, os clientes iam à loucura. Isso também foi ensinado por Camarro, um voyeur e conhecedor dos olhares sensuais da plateia dos cabarés. Buenos Aires, 1930. Ano do Golpe de Estado, conhecido também como Revolução de Setembro, que envolveu a derrubada de Hipólito Yrigoyen. Esse movimento foi conduzido por José Féliz Uriburu e Juan Domingos Perón. Enquanto o mundo político fervia, o tango era o remédio para as angústias e alegrias do povo argentino. Nas ruas e avenidas largas da capital argentina, com seus cafés, cabarés e alguns dos teatros mais importantes de Buenos Aires, Helena era conhecida e admirada por todos. O bairro San Telmo, um dos mais antigos e preservados de Buenos Aires, possuía uma atmosfera boêmia e era o local escolhido por artistas. Era nesse bairro que Helena, Camarro e Marco Antônio, viviam. Tudo fazia parte de um mesmo mundo. Enquanto Uriburu e Perón articulavam uma nova Argentina, o tango mostrava ao mundo a beleza dos passos e a sutileza dos corpos em movimento. Vários generais foram amantes de Helena, a mais linda dançarina portenha. Ela fazia da noite o maior acontecimento da sua vida e de quem estivesse nos seus braços. A magia contaminava o mundo intelectual de San Telmo e nada era mais sublime que ver um casal dançar tango, enquanto o som quebrava a suavidade e o silêncio das ruas. Quando a força do tango avançava nos corações e mentes, vários artistas iam para as ruas de San Telmo para transformar ruelas em grandes salões de apresentações. Todos eram contaminados pelo veneno transcendental da música e dos passos que os dançarinos, embriagados, mostravam. Cada passo obedecia o olhar das pessoas que procuravam penetrar na essência da musicalidade do tango. Ali, Helena viu a grandeza e ao mesmo tempo a beleza de se deixar envolver pela música que fazia do coração uma ponte para a morte. Entre um gole de vinho e o requebrado dos corpos, muitos corações deixaram de bater para voltar a reviver nos porões do além. Marco Antônio, em momentos de êxtase musical, costumava dizer que “morrer dançando tango seria um presente de Deus aos dançarinos...” Dentro desse contexto, de pura adrenalina existencial, Helena se entregava totalmente à arte da dança dos deuses, porque assim era chamado o tango nas décadas de 20,30 e 40, na Argentina. A emoção era tão forte que até mesmo na hora de fazer amor, os amantes sentiam uma profunda emoção em ouvir o som das cordas de um violão, entre um orgasmo e outro, nas madrugadas sem fim. O tango começou a ser tocado e cantado mundo afora. Os ricos europeus vinham passar as férias em Buenos Aires, para fazer parte do mundo mágico do tango. Tudo conspirava para que Helena, dançarina dos grandes teatros e cabarés, fosse a mulher dos sonhos de todo homem com poder e riqueza. Com 26 anos de idade, ela sabia que tinha um tempo, um prazo de validade. Logo as marcas do tempo iriam fazer dela uma velha dançarina e somente os cabarés de baixo padrão iriam lhe dar emprego ou guarida. Tudo isso martelava na sua cabeça, porque não conseguia guardar dinheiro para quando esse momento trágico da vida de todos os seres chegasse. Camarro, dançarino que nunca soube ter uma vida glamurosa, não tinha essa preocupação. No início, todos o chamavam de maricas, pois vivia dançando e rebolando pelas ruas de San Telmo.Até que um dia Marco Antônio resolveu lhe dar oportunidade, levando-o para a sua academia de dança no centro de Buenos Aires. Lá aprendeu de tudo, até como conquistar uma mulher nas noites alegres da vida dos encantados dançarinos. Marco Antônio disse-lhe, num certo momento da sua juventude: - Camarro, meu amigo e parceiro das noites, faça da tua vida uma eterna dança. Mesmo que teu coração esteja amargurado, não demonstre, ria e dance. Quando a morte bater a tua porta, não fique com medo, convide ela para dançar. Assim você irá transformar esse momento triste numa dança que até mesmo a morte se tornará tua amante. - Por que você está dizendo isso, Marco Antônio? –perguntou Camarro, sem entender nada. - Porque você precisa aprender algumas regras dos dançarinos. Relaxe e deixe o tango guiar os teus passos. Sinta o som musical penetrar no teu corpo e na tua alma. Nós somos artistas, criaturas especiais, seres que a divindade cuida e abençoa. Nascemos para alegrar as pessoas e fazer da dança um momento sublime, mesmo que por dentro estejamos estraçalhados. As palavras do Marco Antônio ficaram gravadas para sempre na mente de Camarro. Quando Helena ficava triste e sem vontade de dançar, ele repetia o que tinha ouvido de Marco Antônio. Helena, por mais que estivesse envolvida com os dois, nunca os conheceu profundamente. Marco Antonio, mais velho e mais rodado que Camarro, nunca foi casado, simplesmente viveu com a dança e fez do tango uma estrada sem endereço fixo. Ela jamais iria entender o que se passava com os seus dois amantes. Muitas noites, quando o frio de Buenos Aires tomava conta das ruelas de San Telmo, Marco Antonio e Camarro desapareciam uma semana inteira, para reaparecerem sem dar nenhuma explicação. Pareciam cansados, mas com forte brilho nos olhos... Helena, mulher e dançarina de tango, tinha pelos dois um imenso amor que beirava a loucura. Exigia que fosse possuída pelos dois nos camarins dos teatros e nos quartos de cabarés. Ela dizia que só poderia participar das apresentações se fosse tocada intensamente por eles. Como mulher, sabia que os dois faziam dela a deusa dos desejos carnais. Em julho de 1932, numa sexta-feria fria, perto da meia-noite, no principal teatro de San Telmo, cinco generais do novo sistema, expoentes da Revolução de Setembro, assistiam sem piscar os olhos, a dança onde Helena sentiu pela primeira vez o seu corpo tremer ao perceber que tinha chegado ao orgasmo ao ver que eles estavam observando as suas coxas sendo acariciadas num requebrado frenético de Camarro. Depois dessa apresentação, tanto ela quanto Camarro, tornaram-se convidados especiais dos militares nas orgias dos quartéis. Ela virou a queridinha do poder militar. Por mais forte que seja uma emoção, por mais longa que seja uma noite de pura magia sensual, tudo passa. Foi assim que aconteceu. Ao chegar no apartamento na praça de San Telmo, Helena viu um grande movimento. Aproximou-se e percebeu que alguma coisa tinha acontecido no seu prédio. Para sua surpresa, as pessoas entravam e saíam do apartamento onde morava. Foi abrindo passagem entre curiosos e, no quarto, dois corpos estendidos esperavam para ser levados para o IML. Na sala, um Senhor, com uma arma na mão, chorava copiosamente. Ela perguntou: - O que se passa? - Eu matei os dois. Fui amante do Marco Antonio durante muitos anos. Ele me trocou por esse rapaz. Agora acabou tudo. – disse - e abaixou a cabeça, continuando a chorar. Helena ouviu o que jamais gostaria de ter ouvido na vida. Nunca passou por sua cabeça que os seus dois amores eram maricas. No decorrer dos dias seguintes algumas imagens vieram a sua mente. Começou a entender o passado dos dois. Ela ainda tem no pensamento uma frase dita por Marco Antonio para Camarro numa noite de 1929, “me gusta tomar tequila blanco...soy un hombre que mora nu corazón de la tango. Tu corazón tiene gusto a miel”. Hoje, Helena consegue entender que Marco Antônio estava se declarando a Camarro. Ela amava dois hombres e não dois maricones. O destino estava sendo cruel demais com Helena. Esses acontecimentos fizeram dela uma outra mulher. Abandonou o tango, e a dança morreu no seu coração. Largou San Telmo e Buenos Aires para sempre. Foi morar numa cidadezinha da Patagônia. Quando o frio chegava, velha e cansada, Helena olhava para as fotos de Camarro e Marco Antônio, tentando reviver os momentos que passaram juntos nas noites de tango, mas não adiantava, tudo tinha terminado. Esperou o fim chegar e, como toda dançarina, fez da morte uma dança, onde o coração para de bater de forma lenta e com glamuor.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

AVE DE ARRIBAÇÃO

Sessenta e cinco anos de uma longa vida, muitas estradas percorridas, noites sem fim e a certeza de que ainda tem que continuar a viver. Desde cedo, quando ainda era criança, sentia que iria cansar de caminhar pela estrada do tempo. Na infância sofreu vários abusos, fome e frio foram as suas companheiras. Filho do acaso, não teve oportunidade de receber uma educação adequada, somente aquilo que a escola da existência ofereceu, nada mais. Os pais fugiram das responsabilidades e o deixaram à mercê da sorte, sendo criado pela irmã mais velha, que também lhe deu somente o que tinha. Foi aluno das escolas da vida, da rua, dos boeiros imorais, guetos sexuais e outros parasitas que a sociedade oferece aos deserdados. Enfim, uma criança criada no lodo do sistema. Cresceu numa cidade pequena, distante de tudo, conheceu somente meia dúzia de pessoas que lhe deram certa confiança. Mundo pequeno para uma criança repleta de sonhos, imensa vontade de sair, avançar para um lugar onde pudesse mostrar os seus dons trazidos no fundo da sua alma. Ao seu redor, pobreza, injustiças, brigas e vinganças mostravam a ele que, por mais sonhador que seja alguém, é difícil quebrar essas barreiras, sair da lama, voar para outros lugares mais dignos para viver. Com extrema dificuldade estudou o primário e o ginásio, depois, o mundo foi a sua escola. A corrente do destino acabou levando-o para outros pontos, distante daquele mundo pequeno em que foi criado. Como pedra que rola, rolou por todos os recantos, sem conseguir fixar raiz em algum lugar. Foi estudante das contradições do sistema econômico e da exploração. Carregou nas costas as marcas de uma infância dominada pela falta de orientação que mostrasse o caminho do sol e do norte da vida. Esse é Pedro, que depois de tudo, depois de perambular pelas noites e loucas caminhadas, tornou-se professor de literatura moderna de uma faculdade particular. Isso só aconteceu porque foi amante de uma mulher casada, rica e poderosa, pertencente à elite abonada. Ela custeou seus estudos e pagou várias despesas. Após a formatura, ele abandonou a ricaça, que não suportou ser descartada e acabou se suicidando. Pai de vários filhos, que foram deixados ao relento, e amante de belas mulheres, que também deixou pelo caminho, depois de usá-las. Como nunca foi levado a sério, levou consigo o pensamento de que uma vez que tinha apanhado tanto no passado, podia bater também. Dizia sempre que assim como foi abusado, iria abusar no presente e no futuro. Prometeu que se vingaria de todas as injustiças praticadas contra ele, quando ainda era criança e adolescente. Mesmo com sangue envenenado pelas injustiças, Pedro era uma pessoa comunicativa, alto, de olhos pretos, trazia no coração e na alma a determinação dos imigrantes italianos. Nas horas livres pegava seu violão e tocava lindas canções. Ele também só aprendeu a tocar violão porque namorou uma professora de música. Em tudo que fazia, a sensualidade estava presente. Quando a noite chegava, sozinho na varanda da sua casa, ao observar o nascimento da lua cheia, tocava a canção dos amantes, que dizia que “o amor é uma coisa forte, se parece com a lua, ilumina a alma...” Mesmo com esse dom maravilhoso, Pedro era um desajustado para a sociedade. Com seu talento de sedutor, separou inúmeros casamentos, sem nunca ter piedade. Num domingo do verão de 2009, no dia do seu aniversário, ao completar 65 anos, no momento em que tocava violão, uma jovem aparentando 22 anos se aproximou e disse: -Que linda música o senhor está tocando! -Obrigado, mas não gosto que me chame de Senhor. -Desculpe. Como é seu nome? – perguntou a jovem. -Pedro. E o seu? -Letícia. Eu gostaria de conversar um pouco com você. Posso? -Com toda certeza! Hoje é um dia especial para mim, e mesmo sendo um dia especial, me encontro comemorando esse dia sozinho. – acrescentou Pedro, com certa melancolia. -Não sou muito boa em tornar as pessoas alegres. Como não tenho nada a fazer, posso ficar algum tempo com você, para conversarmos. - Então, entre e sente-se nessa cadeira. Enquanto apreciamos o vale, que a cada dia está mais bonito, vamos trocando palavras. A conversa sempre nos traz ensinamentos, acalma a alma, suaviza a mente e abre os horizontes. – sinalizou Pedro, já mais descontraído. Pedro e Letícia conversaram por um longo tempo. Cada um falando de suas experiências nos seus mais variados aspectos. Ele, por ser mais velho, conversou mais, e ela falou sobre a sua juventude. Durante seis meses eles trocaram informações e se conheceram melhor. Acontece que tanto Pedro quanto Letícia sentiram que alguma coisa estava ocorrendo, porque a situação começou a ficar diferente. Se no início havia certo controle, aos poucos o contato físico foi avançando e ultrapassando os limites. De um simples beijo, foi a um beijo quente e sempre nos lábios, deixando que a sensualidade dominasse os seus corpos. Pedro começou a entender a situação e resolveu parar com tudo. Determinado dia disse à Letícia: - Preste atenção: nós devemos parar de nos encontrar. Eu sirvo para ser teu avô e já tenho uma vida repleta de relações mal resolvidas, que não levaram à nada. Você é nova e tem uma vida inteira pela frente. – ponderou. - Eu não me importo. Desde o início eu já sabia que iríamos chegar onde chegamos. Quero viver o momento como fosse o último. Também sei quem é você. – acrescentou Letícia. - E quem sou eu? – perguntou Pedro, demonstrando certo constrangimento. - Você é um homem que nunca amou ninguém. E não será agora, aos 65 anos, que irá amar. Se esse é o motivo, para mim está tudo certo, até porque ainda não aconteceu o que eu quero que aconteça. – revelou Letícia, resolvida em aprofundar a relação com ele. Pedro resolveu deixar que as coisas chegasse até ao que ela queria. Agora, tudo claro no que dizia respeito às emoções amorosas, o mundo da sensualidade tomou conta deles. Ainda era início da primavera, as flores estavam começando a florir o vale onde Pedro morava e Letícia queria se tornar mulher. Os pais de Letícia estavam viajando e sendo filha única, ela não tinha ninguém para atrapalhar os seus planos com seu amado. Após Pedro tocar uma música em que fazia com que o violão acalentasse os corações dos amantes, eles não resistiram às profundas carícias e foram para a cama. Com sua longa experiência de amante, Pedro fez de Letícia uma mulher feliz no sentido mais sensual possível. Ela viu o mundo mudar. Agora era uma mulher pronta para a sociedade. Não era mais aquela virgem à espera de um príncipe encantado. A noite estava terminando e a madrugada iniciando a sua jornada para desaparecer dos olhos do mundo. Os raios do sol estavam apontando no alto da montanha e os passarinhos cantavam à procura de alimentos e saudar o novo dia. Pedro levantou da cama, lentamente, para não acordar a sua amada. Sentou na varanda para observar os primeiros movimentos de um novo dia. Letícia dormia o sono de uma mulher plenamente satisfeita. Ele se indagava sobre os motivos que levaram uma moça linda a se apaixonar por um homem bem mais velho e cafajeste. O pensamento viajou para bem longe, onde iniciou a vida de aventureiro. Nunca tinha parado para pensar em nada. Fazia da mulher um ser para ser conquistado e deixado para trás, como uma terra onde o mato toma conta sem que ninguém cuide. Para ele, a mulher nasceu para ser assim, usada pelo homem e depois colocada de lado. Com Letícia não estava sendo assim. Talvez a idade dele, o pouco tempo de vida que ainda lhe restava estivesse tornando-o mais cansado das aventuras. Alguém no passado tinha dito que ele era igual a ave de arribação, que nunca permanece num mesmo local, sempre voando para todos os cantos do mundo, e no final morre sozinha no alto das montanhas, sendo isca para as águias de longas asas e bicos finos. Hoje, ele compreende o que foi dito lá atrás. Às vezes olha para o alto da grande montanha e chega a imaginar sendo devorado pelas águias. Depois, volta à realidade e pensa que tudo também tem um momento, mas no fundo percebe que seu momento está se aproximando. Letícia acorda e olha Pedro sentado na varanda. Levanta enrolada no lençol e dirige-se a ele, dizendo: - Não pare para pensar. Deixe que o destino guie você. Imagine que está sendo levado rio abaixo, num pequeno barco. Nós não somos donos do destino, podemos até tentar escrever um, mas não adianta, existe uma força que nos leva a um local já traçado. Venha para os meus braços...Assim você vai sentir que a vida foi feita para ser vivida cada instante... Pedro ouviu as palavras da sua jovem amante e concordou totalmente. Segundo ele, no fundo eram iguais, mas com alguma diferença. Letícia pensa e sabe o caminho que está percorrendo. Pedro não. Ele é guiado pelo vento da paixão momentânea, pela safadeza, imoralidade, irresponsabilidade e se deixa levar sem ter qualquer preocupação de que esteja prejudicando terceiros. Usa as mulheres, e Letícia sabe que está sendo usada. Tem uma visão profunda, mesmo tendo pouca idade. O tempo caminha assim como as águas de um grande rio. Tudo desemboca no grande lago, que todos chamam de oceano. A paixão é assim. Como brasa, no início queima forte e aos poucos vai perdendo o calor e lá na frente, torna-se apenas cinzas, que o vento se encarrega de dissipar pelas montanhas e vales. O amor é diferente. È criado na raiz dos sentimentos humanos. Não morre, viaja através dos tempos, para renascer num outro momento, com outras roupagens, mas o mesmo, como uma vela, que um dia foi apagada num simples sopro, reacendendo no tocar de emoções profundas. Letícia e Pedro começaram a perceber que era a hora do adeus. Ela tinha convivido com ele quatro anos. Enfrentou a ira e a teimosia dos pais, que não entendiam as razões da relação amorosa. Como filha única, eles acabaram deixando que as nuvens da paixão navegassem pelo universo dela. O inverno estava batendo à porta. O frio mostrava que desta vez iria trazer neve ao vale das lindas flores. A montanha, repleta de Flores da Serra, iria se tornar uma graciosa e bela copa colorida. Pedro e Letícia tiveram uma conversa definitiva. Ele, com o coração partido, e sentindo que o seu momento de descansar no alto da grande montanha estava chegando, disse a ela: - Na verdade sempre pensei que nada era eterno entre nós dois. Você me ensinou várias coisas. A principal é que pode existir, sim, sentimento profundo entre um homem e uma mulher e o sexo não é a única vertente num casal. - Pedro, mesmo sendo mais nova que você, sinto que a minha alma não é nova. Parece que vivi essa experiência, só que desta vez não estou sofrendo, apenas levando comigo os lindos momentos que passamos juntos. Assim, podemos viver tendo como base uma relação que acalentou os nossos corações... Conversaram bastante. Cada um deixando as emoções do adeus tomar conta das suas almas. No final, Pedro disse à Letícia: - Amanhã bem cedo gostaria que você viesse aqui em casa. Vai encontrar algo que deixarei para você.. - Venho sim, se é esse o teu pedido...- respondeu Letícia. No dia seguinte bem cedo, ela se dirigiu à casa de Pedro. Chegando lá, encontrou a porta aberta e um bilhete em cima da mesa, que dizia: “vá ao meu encontro no alto da montanha”...Letícia não entendeu bem, mas foi caminhando até o local... As Flores da Serra tomavam conta da encantada grande montanha. As águias voavam de um lado para o outro. O perfume da natureza fazia com que os pássaros cantassem as suas mais lindas canções. A raposa cinza estava sentada numa pedra próxima à vertente de um riacho, observando a chegada de Letícia. O frio mostrava as suas garras, fazendo com que as coisas se tornassem mais aconchegantes no interior das cavernas. Num tronco caído de uma canela, ela viu o corpo de Pedro sendo devorado pelas águias.Tentou se aproximar, mas não conseguiu. As águias olharam raivosamente para ela, como dizendo que estavam cumprindo uma profecia e o corpo de Pedro era o alimento. Em vez do som do violão, ouviam-se os gritos da morte se espalhar pelo vale. A morte veio buscar o homem de pedra, sem coração, o sedutor que jamais teve piedade das mulheres. A morte precisava dele no paraíso da escuridão. Quem sabe nos bailes do inferno, Pedro possa continuar a sua saga, acompanhado das suas amantes infelizes. Com lágrimas nos olhos, Letícia desceu lentamente a montanha sem olhar para trás. Ela foi a última amante de um homem que estava atravessando o vale da vida para entrar no vale da escuridão, do local onde só vivem os seres sem amor e sem perdão. Letícia sabia de quem estava se despedindo... Não se arrependeu de nada, apenas viveu momentos inesquecíveis e que lhe trouxeram belas lições de vida. Nas longas noites dos invernos seguintes, às vezes Letícia ouvia o som de um violão vindo do alto da montanha. Fechava os olhos deixando que o pensamento viajasse... Quem sabe um dia também venha a se encontrar com Pedro, nas engrenagens do tempo...

NÃO VOU ADORMECER SEM DEGUSTAR OS MEUS SONHOS

Ninguém prende um pensamento. Ninguém aprisiona uma alma ou um coração. O amor é livre e o gostar caminha junto com a liberdade. O desejo ...