Naquela noite eu pensei que o mundo iria acabar. Tudo estava caminhando rapidamente para o fim. Não queria que fosse daquela maneira, mas o destino escreveu e tinha que ser cumprido. Olhei para todos os lados para ver se enxergava alguém, tudo em vão, estava sozinho à espera do final dos tempos. Lutei por muito tempo para que as coisas terminassem diferentes.
Além da escuridão o frio era intenso. Ninguém caminhava pela rua. Todos estavam dentro de suas casas e parece que não queriam participar da minha história. Fiquei sozinho envolto em uma grande tragédia. Naquelas alturas não poderia fugir, simplesmente era obrigado a aguardar o desfecho. O vento assoviava levantando as folhas secas espalhadas pelo chão da rua. No final da avenida, era possível ouvir os gritos de Flávia.
Na semana passada, ainda tentei de todas as formas, mostrar à Flávia que os nossos encontros iriam acabar mal. Ela não me escutou. Queria continuar sendo a minha amante.
- Nós não podemos continuar. Se ele descobrir será o nosso fim. Roberto é violento e não vai deixar barata a tua traição. – Expliquei.
- Não importa meu querido. Por muito tempo sonho dar o troco. Quero que ele sinta a mesma dor que senti quando descobri que ele era amante da minha melhor amiga.
E continuou:
- Ele é um homem que não me merece. Sempre foi de uma tremenda desconsideração. Posso até ser morta por ele, mas que darei o troco, não tenha dúvidas.
Flávia era uma bela mulher. Por um grande erro do destino acabou casando com Roberto, policial que nunca soube o significado da palavra carinho. Muito menos respeitar uma mulher. Conheceram-se num final de semana e dali seis meses estavam casados. No segundo mês, Flávia já estava arrependida de estar vivendo com o policial, mas era tarde. Como tudo na vida, o arrependimento vem a galope.
Roberto não tinha um bom salário e em consequência disso, considerava-se menor que Flávia. A maioria das contas era paga por ela e assim as brigas tornaram-se frequentes. Flávia formou-se em economia e trabalhava numa multinacional de componentes eletrônicos. Na realidade, pouca coisa eles possuíam em comum.
Nos finais de semana, quando Roberto não estava de plantão na delegacia, para tentar melhorar a relação, o casal frequentava um barzinho, mas não adiantava, tudo era motivo de briga. Foi numa dessas saídas que conheci Flávia. Ela estava sentada numa mesa bem na minha frente. Não tinha como não observá-la. Além de ser uma linda mulher, possuía lindos olhos azuis. Trocamos vários olhares durante a noite. No final, consegui passar para ela o número do meu celular através do garçom, amigo meu de longa data. Ele aproveitou a ida dela ao banheiro e entregou-lhe o papel.
Os nossos encontros tornaram-se semanais. Flávia demonstrava ser uma mulher triste, talvez pela vida que estava levando com o policial. Depois das nossas relações amorosas ela reclamava da vida, do grande erro que cometeu em ter casado. Dizia que sua situação seria bem melhor sendo separada do que viver com um homem que não amava. Eu não dizia nada, apenas escutava, era um bom ouvinte. Até porque tinha os meus problemas amorosos e não iria dividir com ninguém. Mesmo assim entendia as razões de Flávia, não é fácil viver com que não se ama e que não se sente prazer.
Enquanto os gritos de Flávia eram jogados ao vento da noite, pensei em ir socorrê-la. Não estava suportando mais ouvir a minha amante ser torturada. Adquiri coragem e caminhei até a casa do casal. Chegando lá, os gritos eram mais estridentes. Abri a porta com força, mas para minha surpresa, vi algo que jamais esquecerei. Flávia estava nua e sentada sobre o corpo todo ensanguentado do policial. Ela chorava, gritava como uma louca, e ao ver-me, disse:
- Querido, estou livre para sempre, matei quem estava estragando a minha vida. A partir de hoje serei tua por toda a vida. Coloquei calmante na bebida dele, aproveitei que estava dormindo, enfiei uma faca no coração. Morreu como um passarinho. Esse filho da puta nunca mais vai gritar comigo.
- Você está frita e será presa! Não deveria ter feito isso! A tua vida está estragada. – Falei, tentando lhe mostrar o erro cometido.
- Não importa meu querido. Nós vamos fugir para o Paraguai. Está tudo acertado.
- Eu não vou fugir com você. Não tenho nada a ver com o que aconteceu. – Respondi.
- Agora é tarde! Você vai sim! Não tente escapar! – Afirmou com olhar de ameaça.
Tentei correr, mas não consegui, senti uma forte dor nas costas. Ela enfiou uma faca em mim. Cai e não vi mais nada.
Alguns meses após o ocorrido, estou recuperado dos ferimentos. Flávia foi internada num hospital para tratamento psiquiátrico e de lá nunca mais vai sair.
domingo, 17 de julho de 2011
sábado, 16 de julho de 2011
Sou Espírito da Treva
Sou o espírito da treva,
A noite me tráz e leva;
Moro à beira irreal da vida,
Sua onda indefinida
Refresca-me a alma de espuma...
Prá além do mar há bruma...
E prá aquem?
Há cousa ou fim?
Nunca olhei para trás de mim...
Fernando Pessoa
sábado, 9 de julho de 2011
Despertar é Preciso
Vladimir Maiakovski
Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim
e não dissemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam o nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua
e, conhecendo o nosso medo
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada
Já não podemos dizer nada.
Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim
e não dissemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam o nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua
e, conhecendo o nosso medo
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada
Já não podemos dizer nada.
domingo, 3 de julho de 2011
Amor É Um Fogo Que Arde Sem Se Ver
Luís de Camões
Amor é um fogo que arde sem se ver
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer,
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente,
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter, com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode ser favor
nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?
domingo, 26 de junho de 2011
Sinfonia de um Tempo
Não sei se sou dono do tempo
Ou o tempo é dono de mim
Ontem estava vivendo na França de Napoleão
Hoje estou aqui procurando
Fazer parte de um tempo
Que não tem tempo para mim
Não consigo parar no tempo
O tempo corre atrás de mim
Às vezes me vejo correndo atrás de uma bola
Em outros momentos
Estou galopando num cavalo
Com uma espada na mão
Lutando contra os romanos
Para fazer parte de um tempo
Quando penso no dia de ontem
Abro os olhos
Estou caminhando nas principais
Ruas de Moscou
Nos tempos dos czares
Em seguida
Esqueço-me do dia de hoje
A Rússi não me sai da visão
Os meus olhos voltam a fechar
Quando acordo
Estou perdido no tempo
Com a chegada da noite
Corro sem parar
Fujo da madrugada
Estou com medo
Caminho nas ruas escuras de Londres
Época vitoriana
Prostitutas são assassinadas
Crimes do estripador
São manchetes nos jornais
Que fazem história de um tempo
Quando tudo parece calmo
Alguém me pega pela mão
Estou sendo levado para ouvir um concerto
Um grande teatro surge a minha frente
Mozart toca a nona sinfonia
Permaneço até o final
De repente estou sozinho
O teatro está vazio
Adormeço numa poltrona
Sonho que sou filho do tempo
Quero parar de sonhar
Ordeno que meu pensamento
Volte ao leito natural
Não consigo
Uma força sobrenatural me domina
Vejo uma sombra seguindo os meus passos
Mostra os horrores da Segunda Guerra Mundial
Uma criança maltrapilha
Chega perto de mim
Entrega-me uma rosa vermelha
Ela aponta para um imenso cogumelo no céu
É Hiroshima e Nagasaki
Ardendo no fogo
Que mais parece o inferno
De um doloroso tempo
Ando com a criança
Por todos os lugares
Em cada lugar uma batalha
Em cada batalha pessoas morrendo
A dor no coração é grande
As lágrimas correm
No rosto do anjo
Que me acompanha
A tristeza é profunda
Depois de muito andar
A criança caminha lentamente
Na direção do horizonte
Desaparece sem deixar rastros
Permaneço perdido no tempo
Sem poder fazer nada
Raça humana desgraçada
Que deixa a morte
Acabar com os melhores dias de um tempo
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Olhar Peregrino
Uma tarde sem sol
Sentado em cima de uma pedra
Olhando o invisível
Que viaja na minha consciência
Silenciosamente percorre minha alma
Como se fosse um detetive
Querendo encontrar o início de tudo
Olho para o campo
Procuro ouvir a orquestra do tempo
Que toca em perfeita sintonia com o universo
Meus olhos acompanham os raios de sol
Que penetram nas sombras das ávores
Caminho pelo jardim
Quero sentir o pulsar da natureza
Que a cada momento
Mostra que tudo tem um sentido
Até o cair de uma folha
Tem uma razão
Uma indicação
Espero a chegada da noite
Preciso do perfume da escuridão
Quero ouvir o canto da coruja
Caminhar na direção da lua
Namorar a sua beleza
Ser acariciado pelos seus raios de luz
Vou até a fonte de água cristalina
Que desce da montanha
Mato a sede
Lavo as mãos
A minha vontade é adormecer
Ouvindo o barulho da água
Que caminha na direção do mar
O silêncio é uma doce oração
Minha voz fica sem sentido
Os raios do meu pensamento
Espalham-se no espesso tapete
De folhas secas adormecidas
Olho para os lados
Sinto a alegria tomar conta de mim
O vento bate nos galhos das árvores
Num gracioso balançar
Uma dança se inicia
Uma melodia é tocada
As pétalas da rosa amarela
Entregam-se suavemente
Ao cair das gotas de orvalho
Depois de tudo
Sem falar com ninguém
Deixo os pensamentos seguirem o seu rumo
Volto para a realidade
Não permito que o futuro
Estrague o que aconteceu
Abro espaço dentro do meu coração
Guardo tudo a sete chaves
Levanto os olhos
Caminho sem olhar para trás
Sentado em cima de uma pedra
Olhando o invisível
Que viaja na minha consciência
Silenciosamente percorre minha alma
Como se fosse um detetive
Querendo encontrar o início de tudo
Olho para o campo
Procuro ouvir a orquestra do tempo
Que toca em perfeita sintonia com o universo
Meus olhos acompanham os raios de sol
Que penetram nas sombras das ávores
Caminho pelo jardim
Quero sentir o pulsar da natureza
Que a cada momento
Mostra que tudo tem um sentido
Até o cair de uma folha
Tem uma razão
Uma indicação
Espero a chegada da noite
Preciso do perfume da escuridão
Quero ouvir o canto da coruja
Caminhar na direção da lua
Namorar a sua beleza
Ser acariciado pelos seus raios de luz
Vou até a fonte de água cristalina
Que desce da montanha
Mato a sede
Lavo as mãos
A minha vontade é adormecer
Ouvindo o barulho da água
Que caminha na direção do mar
O silêncio é uma doce oração
Minha voz fica sem sentido
Os raios do meu pensamento
Espalham-se no espesso tapete
De folhas secas adormecidas
Olho para os lados
Sinto a alegria tomar conta de mim
O vento bate nos galhos das árvores
Num gracioso balançar
Uma dança se inicia
Uma melodia é tocada
As pétalas da rosa amarela
Entregam-se suavemente
Ao cair das gotas de orvalho
Depois de tudo
Sem falar com ninguém
Deixo os pensamentos seguirem o seu rumo
Volto para a realidade
Não permito que o futuro
Estrague o que aconteceu
Abro espaço dentro do meu coração
Guardo tudo a sete chaves
Levanto os olhos
Caminho sem olhar para trás
terça-feira, 14 de junho de 2011
Canção de Outono
Autor: Cecília Meireles
Perdoa-me, folha seca,
Não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
E até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
Pelas areias do chão,
Se havia gente dormindo
Sobre o próprio coração?
Eu não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
É que sou triste e infeliz.
Perdoa-me folha seca!
Meus olhos sem força estão
Velando e rogando áqueles
Que não se levantarão...
Tu és a folha de outono
Voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é menos que o vento,
Menos que as folhas do chão...
Perdoa-me, folha seca,
Não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
E até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
Pelas areias do chão,
Se havia gente dormindo
Sobre o próprio coração?
Eu não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
É que sou triste e infeliz.
Perdoa-me folha seca!
Meus olhos sem força estão
Velando e rogando áqueles
Que não se levantarão...
Tu és a folha de outono
Voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é menos que o vento,
Menos que as folhas do chão...
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