domingo, 28 de agosto de 2011
Árvores Retorcidas
A pedra foi colocada no caminho
Os nossos passos estão obstruídos
Não vamos ficar admirando o obstáculo
É preciso dar a volta pelo lado
Continuar a caminhar com desenvoltura
Se a estrada é longa
Não importa o cansaço
Não adianta chorar
Muito menos lamentar
Precisamos tirar lição dos percalços
Se for preciso andar descalço
Com os pés sangrando
Não vamos jogar pedra ao vento
O caminhante não pode reclamar do tempo
Que muitas vezes demora a passar
A vida é uma escola
Onde somos alunos repetentes
Dependentes do humor do tempo
Mesmo castigados
Maltratados com a fúria da tempestade
Levantemos a cabeça
Observemos as nuvens
Para que lado elas estão viajando
Assim podemos pegar carona
Para combater o temporal da vida
Mas nunca correr sem lutar
Se for preciso
Vamos morrer lutando
Não importa
Porque o importante é
O final da caminhada
Devemos observar as árvores retorcidas
Elas suportam a selvageria do vento
Não quebram o tronco
Vivem combatendo os loucos ventos
Espalham as raízes pela terra
Procuram se fortalecer
Em vez de reclamar da sorte
Suavemente sempre balançam seus galhos
Como num bailado de alegria
Agradecem a fúria do vento
Assim tornam-se cada vez mais fortes
domingo, 21 de agosto de 2011
Maldade Vampiresca
A casa noturna que eu frequentava era a minha segunda casa. Natal e Ano Novo e as demais datas importantes eu passava ali, no lugar dos meus sonhos, pesadelos e desesperos amorosos. Chegava primeiro e saía por último. Conhecia todos e todos me conheciam. As mulheres de todas as idades e de todas as cores adoravam sentar na minha mesa e beber comigo até a madrugada desaparecer no horizonte. Não vou dizer o nome da casa, porque o importante foram os acontecimentos que ali ocorreram. O mundo até podia acabar, mas quem frequentava aquela casa noturna, vivia momentos inesquecíveis e o inesperado sempre se fazia presente.
Foi nesse ambiente que conheci Marlei, mulher adorável, misteriosa, má, e de beleza física excepcional. Por onde andava sempre acontecia alguma coisa na área da maldade. Ela pulava de mesa em mesa, bebendo ora com um, ora com outro, e no final da noite sempre saía acompanhada. Até adentrar na vida íntima dela, fui um atento observador de suas andanças amorosas e dos bárbaros crimes que praticava. A presença dela naquele ambiente era sutil, lenta e fatal. Aparecia de surpresa e se retirava sem dizer nada.
Lembro-me da relação que ela teve com Cláudio, mulato, filho único de uma família rica do Mato Grosso. Cláudio se relacionou com Marlei durante três meses. Numa derradeira madrugada, ele apareceu morto no seu apartamento. O corpo dele estava em pedaços e sem sangue, parecendo que alguém o havia sugado. A polícia não encontrou nenhuma pista do assassino. Até um investigador de polícia desapareceu quando chegou perto das pegadas de Marlei. Seu corpo foi encontrado duas semanas depois no fundo do mar, amarrado numa pedra.
A misteriosa loira nunca falou de sua vida para os seus amantes. Omitia ou mentia e poucas pessoas, talvez ninguém, era convidado para visitar a sua residência. Gostava de fazer amor nos locais públicos e perigosos, principalmente dentro de carros, ou até mesmo nas ruas escuras de Florianópolis. Dependendo da situação escolhia casas antigas e abandonadas para executar seus planos sensuais e macabros. Depois de uma longa noite de bebida e dança, Marlei pegava pela mão o seu escolhido e saía pela porta discretamente.
Os meus olhos sempre estiveram atentos nos passos da loira, que para mim, mais parecia ser a noiva do diabo. Até hoje não consigo tirar da memória a fatal sexta-feira do dia 10, do mês de agosto de 2001. Já passava das três horas da manhã, a noite estava escura, quente e abafada, quando Marlei pagou a conta da despesa da noite, sorriu e pegou pela mão o alegre Paulo. Aliás, ela sempre pagava as suas despesas.
Naquele dia, ela vestia uma calça bem justa, deixando a mostra o volumoso bumbum. Rebolando, Marlei saiu para mais uma aventura. Não perdi tempo, segui o casal que foi rapidamente na direção de um estacionamento perto dali. Desta vez, ela não quis ir para o casarão abandonado que ficava no final da Rua Conselheiro Mafra.
Fiquei escondido atrás de um carro observando atentamente os movimentos amorosos dos amantes. Marlei levou Paulo para dentro da guarita do cobrador do estacionamento. Cheguei mais perto para ver melhor o que estava ocorrendo. Ela, sem dizer nada, tirou lentamente a calça, ficando só de calcinha. Paulo, agoniado, não perdeu tempo, penetrou Marlei ali mesmo. Eu fiquei olhando e percebia os seus movimentos e gemidos. Depois de uma hora, Marlei, aparentando cansaço, vestiu a calça e deu um forte beijo na boca do Paulo. Ficaram ali abraçados por uns longos cinco minutos. Num piscar de olhos, ouvi um grito. Era Paulo, sendo golpeado por Marlei. A cena era tão forte que fiquei espantado e ao mesmo tempo paralisado. Mesmo caído no chão, ela continuava ferindo-o mortalmente. A arma usada pela assassina era uma navalha, que ao passar pela carne do moribundo, fazia cortes profundos. O sangue jorrava por todos os lados. Depois do ato criminoso, Marlei cortou o corpo de Paulo em vários pedaços. Na medida em que cortava o corpo do pobre diabo, sorria e cantava uma canção que nunca ouvi na vida. Em seguida, colocou os pedaços do corpo dentro de um saco de lixo que trazia na bolsa. Arrastou o saco com o corpo até um bueiro, jogando-o em seguida. O que mais me enojou foi a cena de despedida. Marlei bebeu todo o sangue da vítima.
Levei mais de uma hora para voltar ao normal. Não estava acreditando no que presenciei. A minha intenção era simplesmente ver a cena de sexo entre aquela linda mulher e um homem de meia idade. Eu tinha uma tara em observar casais fazendo sexo para depois me masturbar. Assim como Paulo foi rápido na forma de transar, Marlei foi ligeira na penetração da navalha. A guarita do cobrador do estacionamento foi palco de cenas violentas e sensuais de dois seres da noite. Sem olhar para trás, Marlei foi embora, rebolando a bunda e sem demonstrar nenhum arrependimento. Eu, ainda sem acreditar no que tinha visto, fui para o meu apartamento.
Depois de algum tempo sem aparecer na referida casa dos prazeres e agora de crimes misteriosos, resolvi voltar. Logo que adentrei no recinto, para a minha surpresa ou alegria, Marlei estava sentava na primeira mesa, olhando para mim. O seu olhar era direto nos meus olhos, parece querendo adivinhar os meus pensamentos. Fiz de conta que não a tinha visto, mas não foi possível, ela se levantou e parou de pé na minha frente. Disse secamente:
- Precisamos conversar. Sei que você viu tudo. Você é doente tanto quanto eu e cúmplice dos meus crimes.
- Não sei do que você está falando.
- Não se faça de tolo. Sente aqui na minha mesa. Vou pedir uma bebida.
- Está bem. Mas não vou demorar muito, logo vou-me embora.
- Hoje a noite será longa; ou melhor, a nossa noite, seu masturbador da madrugada. – sorriu ironicamente.
Marlei, após vários copos de Martini seco, convidou-me para dançar. Fomos para o centro do salão. Como sempre, ela era pura sensualidade. Naquela noite, vestia uma saia bem curta e um decote que deixava os seios quase a mostra. A música tocada era bem lenta, convidativa para emoções fortes. Depois de alguns minutos, rosto colado, ela disse ao meu ouvido:
- Querido, eu sei que você viu o que aconteceu com o Paulo e com outros namorados. Há muito tempo que você me vigia. Já vi você se masturbar olhando eu sendo penetrada de quatro. O que você quer comigo? Por que não me denunciou para a polícia?
- Eu não quero nada com você e não sou dedo duro. – respondi.
- Nada não! Você tem desejo e quer me possuir. Estou sentindo na tua respiração, está ofegante. Não se preocupe, eu não vou matar você, somente quero sentir o teu gosto. –revelou, demonstrando autoridade sobre mim.
Não consegui deixar de demonstrar os loucos desejos que tinha por aquela bandida dos infernos. O meu corpo queria ter Marlei de qualquer maneira. Aos poucos, toquei os meus lábios na sua boca. Ela sabia beijar, tinha uma língua saborosa. O beijo da morte, ou do desejo macabro, acabou acontecendo. Senti a língua da mulher misteriosa, remexendo dentro da minha boca. Tremi dos pés a cabeça. Depois do beijo algo estranho aconteceu comigo. Parecia que estava sendo levado para dentro de uma caverna escura. Tentei me largar dos seus braços, mas não foi possível. Por uns longos minutos senti as minhas energias sendo sugadas. De repente, tudo passou. A música terminou e fomos para a mesa. Ao sentar-me, me senti fraco e com uma imensa vontade de beber.
- Beba, você precisa de muito líquido. – disse, como se já conhecesse o que estava ocorrendo.
- Como você sabe que preciso de líquido? – perguntei.
Ela sorriu para mim e revelou:
- Meu querido Valmor, agora você faz parte da minha misteriosa vida. Relaxe e me deixe ser tua eternamente.
Não lhe disse nada, apenas respirei fundo. A madrugada estava chegando e logo um novo dia iria surgir. O meu desejo pela Marlei era grande, selvagem, intenso. Entre beijos e mãos pelo corpo, fomos direto para a guarita do estacionamento. Chegando lá, logo fui tirando a sua roupa. A noite estava maravilhosa, principalmente a lua que brilhava intensamente. A claridade que vinha da lua deixava o bumbum dela mais bonito ainda. Encostei Marlei na parede e fizemos sexo de forma extremamente selvagem. Num determinado momento ela pegou a minha mão e colocou na sua boca. No início sugou e em seguida, deu uma forte mordida, tirando sangue. Mesmo assim continuou sugando. Como estava gostosa a nossa transa, não percebi e muito menos senti o que realmente ocorria. Era uma mistura de dor, desejo, e uma lenta fraqueza começou a tomar conta do meu corpo. Quando gozamos, caí sentado no chão, ela não. Simplesmente levantou a calcinha e saiu no meio da noite. Não me disse nada, nem olhou para trás. Parecia feliz com o que tinha acontecido.
Fiquei ali sentado até amanhecer. Não conseguia me levantar. Olhei para o meu dedo, estava inchado e dolorido. Aos poucos comecei a entender o que tinha se passado. A coisa foi longe demais. Não sei com quem transei se era uma mulher ou coisa do inferno, a única certeza era que eu estava fraco e sem nenhuma força para caminhar. Naquele momento, meio perdido e sem condições de chegar até a minha casa, resolvi rezar e pedir ajuda aos céus. Depois de alguns minutos em oração, e então mais descansado, consegui dar alguns passos. Com dificuldade, aos poucos, cheguei a minha casa. Joguei-me na cama e só acordei um dia depois.
Na minha cabeça, Marlei era um fantasma que sai à noite para sugar o sangue de suas vítimas. Resolvi continuar a perseguição, só que agora com mais preparo. Foi isso que eu fiz. Na sexta-feira seguinte, fui até a casa dos mistérios. O mais interessante é que todos que frequentavam aquele local se pareciam, tinham algo em comum. Chegando lá, pensei que iria encontrar com ela, mas não foi isso o que aconteceu. Perguntei para o garçom se a mulher misteriosa já tinha aparecido. Ele olhou-me com os olhos arregalados e sentenciou:
- Valmor, fique longe da Marlei! Ela é mulher do diabo. Todos que se relacionaram com ela acabaram boiando na Baía Sul, ou apareceram embaixo da Ponte Hercílio Luz.
- Eu sei que ela é coisa do demônio. Mas, fique tranquilo, vou acabar com a raça dela.
Ele deu um sorriso amarelo. Balançou a cabeça e afirmou:
- Ela esteve aqui e saiu com o Luís. Você quer acabar com ela?
- Quero sim. – respondi com determinação.
- Então vá até o Casarão abandonado do Governador Hercílio Luz, na Avenida Mauro Ramos. Ela mora lá. No ano passado aconteceu uma grande festa, com muito sexo e droga com pessoas de fora, vindas do exterior, criaturas esquisitas. A maioria era de políticos. – informou.
Agradeci as palavras do garçom e me dirigi ao velho Casarão. Chegando lá, percebi que tudo estava tomado por ratos e baratas, que circulavam de um lado para outro. Teias de aranha dificultavam o caminho. Estava escuro e somente a luz da lua clareava o local. Depois de percorrer todos os aposentos, observei que nos fundos do casarão, existia uma porta semiaberta. Entrei e logo vi um caixão de madeira nobre. O meu coração bateu forte. Fiquei com medo. A minha vontade era correr e desaparecer daquele lugar. De repente, ouvi uns passos. Escondi-me atrás de uma porta. Era a Marlei que chegava da sua caçada. Estava com a boca suja de sangue e nua da cintura para baixo. Antes de entrar no caixão, olhou para todos os lados, parece que estava sentindo a minha presença. Mas como o dia estava surgindo, entrou e deitou-se no caixão, fechando-o em seguida.
Esperei o dia clarear e fui ao posto de gasolina mais próximo. Comprei dois litros de gasolina. Voltei no velho Casarão para dar fim naquele monstro. Sem esperar muito, derramei os dois litros de gasolina em cima do caixão de madeira. Risquei um palito de fósforo e o fogo tomou conta de tudo. Ouvi um grito vindo dos infernos. Um forte cheiro de enxofre tomou conta do local. Não demorou muito e somente cinzas restaram do caixão e consequentemente da Marlei.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
O Meu Vicio
Fui resgatar você na noite
Na perdição da vida
A noite trouxe você para mim
Levei muito tempo para te encontrar
Gostaria de ter encontrado você muito antes
Que o mundo fizesse de mim
Um homem perdido
Você é a minha imagem
É o meu som ouvido na sombra de uma árvore
É a doce sombra nos dias de sol forte
Sou o teu acompanhante
Você é a minha amante
Nas noites quentes de verão
Sigo o teu pensamento
Persigo os teus passos
Eles se confundem com os meus
A tua voz é a canção
Que embala a solidão do meu destino
Você é a minha flor da noite
Que perfuma a paixão
Guardada no fundo da alma
Você é igual a uma carta guardada
Repleta de lindas palavras
Que nem mesmo o tempo
Consegue fazer desaparecer
Quanto mais tempo
Estivermos juntos
Mais seremos eternos
Ou mais perdidos
Um pelo outro
Somos dois viciados
Dois drogados
Eu pela noite
Pela lua...
Você por mim
Pelos meus beijos...
Você é a minha noite
É a minha seresta
Porque sou o teu seresteiro
É a minha boemia
Que não abandonei
É o vício
Que nao consegui deixar
Quem sabe um dia
Possa morrer ao teu lado
Para acordar no outro lado
De uma perdida noite
Somos como dois ciganos
Que perambulam pelas madrugadas
Trocamos os passos nos salões
Do tango à valsa
Tudo é emoção
Porque os nossos corações
Foram feitos somente para as lindas canções
Na perdição da vida
A noite trouxe você para mim
Levei muito tempo para te encontrar
Gostaria de ter encontrado você muito antes
Que o mundo fizesse de mim
Um homem perdido
Você é a minha imagem
É o meu som ouvido na sombra de uma árvore
É a doce sombra nos dias de sol forte
Sou o teu acompanhante
Você é a minha amante
Nas noites quentes de verão
Sigo o teu pensamento
Persigo os teus passos
Eles se confundem com os meus
A tua voz é a canção
Que embala a solidão do meu destino
Você é a minha flor da noite
Que perfuma a paixão
Guardada no fundo da alma
Você é igual a uma carta guardada
Repleta de lindas palavras
Que nem mesmo o tempo
Consegue fazer desaparecer
Quanto mais tempo
Estivermos juntos
Mais seremos eternos
Ou mais perdidos
Um pelo outro
Somos dois viciados
Dois drogados
Eu pela noite
Pela lua...
Você por mim
Pelos meus beijos...
Você é a minha noite
É a minha seresta
Porque sou o teu seresteiro
É a minha boemia
Que não abandonei
É o vício
Que nao consegui deixar
Quem sabe um dia
Possa morrer ao teu lado
Para acordar no outro lado
De uma perdida noite
Somos como dois ciganos
Que perambulam pelas madrugadas
Trocamos os passos nos salões
Do tango à valsa
Tudo é emoção
Porque os nossos corações
Foram feitos somente para as lindas canções
Poeira do Passado
Ninguém entende
Poucos compreendem
O que significa saudade
Tão falada e escrita
Ao longo do tempo
É algo que surge de repente
Vem vindo...
E o coração emite os
Primeiros sinais
De desespero
A saudade é uma música triste
Uma melodia que fala do passado
Uma canção repleta de palavras
Ditas em vão
Porque não traz de volta o passado
Para as nossas vidas
A saudade é invisível
Como um vento gelado
Que ao bater no rosto
Corta e machuca
A saudade pode até matar
Se não for medicada
Com o remédio chamado presença
Ela não bate à porta
A porta se abre para ela
Ninguém pode dizer que nunca sentiu saudade
A saudade nasce dentro do coração
É irmã da emoção
Age silenciosamente
Não vem acompanhada
Prefere trabalhar sozinha
A saudade é um amor que
Morreu dentro do nosso peito
Pulsa com o tempo
De vez em quando
Faz a gente chorar
A saudade não morre
Vai junto para o além-túmulo
Talvez aumente
Nunca adormece
Só comparece para dizer que o
Amor ainda vive
Mesmo perdido na poeira do tempo
Poucos compreendem
O que significa saudade
Tão falada e escrita
Ao longo do tempo
É algo que surge de repente
Vem vindo...
E o coração emite os
Primeiros sinais
De desespero
A saudade é uma música triste
Uma melodia que fala do passado
Uma canção repleta de palavras
Ditas em vão
Porque não traz de volta o passado
Para as nossas vidas
A saudade é invisível
Como um vento gelado
Que ao bater no rosto
Corta e machuca
A saudade pode até matar
Se não for medicada
Com o remédio chamado presença
Ela não bate à porta
A porta se abre para ela
Ninguém pode dizer que nunca sentiu saudade
A saudade nasce dentro do coração
É irmã da emoção
Age silenciosamente
Não vem acompanhada
Prefere trabalhar sozinha
A saudade é um amor que
Morreu dentro do nosso peito
Pulsa com o tempo
De vez em quando
Faz a gente chorar
A saudade não morre
Vai junto para o além-túmulo
Talvez aumente
Nunca adormece
Só comparece para dizer que o
Amor ainda vive
Mesmo perdido na poeira do tempo
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Saudade
Saudade é a solidão acompanhada
É quando o amor ainda não foi embora
Mas a pessoa já
Saudade é amar um passado que ainda não passou
É recusar um presente que nos machuca
É não ver um futuro que nos convida
Saudade é o inferno dos que perderam
É a dor dos que ficaram para trás
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade
Aquela que nunca amou
E esse é o maior dos sofrimentos
Não ter por quem sentir saudades
Passar pela vida e não viver
O maior dos sofrimentos
É nunca ter sofrido
Pablo Neruda
É quando o amor ainda não foi embora
Mas a pessoa já
Saudade é amar um passado que ainda não passou
É recusar um presente que nos machuca
É não ver um futuro que nos convida
Saudade é o inferno dos que perderam
É a dor dos que ficaram para trás
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade
Aquela que nunca amou
E esse é o maior dos sofrimentos
Não ter por quem sentir saudades
Passar pela vida e não viver
O maior dos sofrimentos
É nunca ter sofrido
Pablo Neruda
domingo, 31 de julho de 2011
Enfermeira
Estou envolvido numa escuridão total. Há duas noites e dois dias que não saio do meu quarto. Fumo e bebo sem parar, já escrevi várias histórias, todas curtas e intensas. A minha mente não para de viajar, por algum momento chego a pensar que estou perdendo o juízo. Isso acontece toda vez que me lembro da minha última internação. Sofri muito na clínica. Os médicos diagnosticaram que sofro de uma grave doença mental. Eu não acredito neles, talvez eu seja vitima da sociedade que cobra tudo, até mesmo o modo de pensar. Se você é diferente, torna-se alguém perigoso e precisa de tratamento. Sendo assim, é escrevendo que consigo me libertar. É bebendo e fumando que consigo livrar os meus pensamentos sobre a dor, a perseguição e a morte.
Quando o dia começou a nascer, abri a janela do meu quarto para deixar o vento da manhã adentrar e assim limpar a intensa fumaça que tomou conta dos meus aposentos. Nesse momento, alguém bateu a minha porta. Abri, e uma linda moça, vizinha do andar de cima, diz:
- Bom dia, escritor! Há dois dias que bato a sua porta e você não atende.
- Bom dia. O que você quer? Algum problema? – Perguntei secamente.
- Desculpe, mas fiquei preocupada com você. – Respondeu - desconcertada com as minhas perguntas.
- Não se preocupe comigo. Não convido você para entrar porque o meu apartamento está totalmente desarrumado. – Acrescentei.
- Não precisa. Agora estou tranquila. Está tudo bem com você. Mas quando sobrar um tempo, gostaria de conversar um pouco. Nunca tive oportunidade de conhecer um escritor famoso. Só conheço você pelos livros e artigos publicados em jornais. – Revelou, tentando uma aproximação.
- Está bem, numa hora dessas conversaremos. Agora, se você me der licença, preciso tomar um banho e comer alguma coisa, estou faminto.
- Fique à vontade, já estou indo embora. Qualquer coisa que precisar pode me chamar. O meu nome é Marlene, moro no apartamento 301.
- Obrigado Marlene. O meu nome você já sabe.
- Sei sim. É o famoso escritor Flamingo.
A conversa com a minha vizinha até que foi boa, mas me deixou preocupado, estava querendo entrar na minha casa sem ser devidamente convidada. De certa maneira ajudou a quebrar o silêncio reinante. No momento em que a porta fechou, voltei para o meu mundo. Um mundo estranho, que somente eu tenho acesso e mais ninguém, que foi construído aos poucos. Essa construção teve início lá na minha infância. Os meus pais se drogavam na minha frente. Para fugir da situação, eu me refugiava no meu quarto. Só saía quando eles adormeciam, ou saíam para rua à procura de mais droga. Fui crescendo vendo as pessoas que eu amava se destruindo. Até que um dia, a morte acabou levando os dois. A alternativa foi viver com a minha avó, que também tinha problemas com bebida e não demorou muito a falecer.
Aos dezoitos anos de idade, vivendo sozinho e sem família, iniciei a minha carreira de escritor. Os meus primeiros escritos se basearam na minha experiência de vida. Relatei os acontecimentos amorosos dos meus pais e o alcoolismo da minha avó. Depois que eles morreram, conheci a vida noturna. A solidão continuou sendo a minha companheira.
Por sorte herdei uma pensão da minha avó, e com isso não foi necessário trabalhar. Em seguida comecei a receber recursos financeiros pela venda de artigos publicados em jornais. Toda a experiência dramática da minha família me contaminou profundamente. Herdei o vício da bebida e ainda loucura do meu avô. Nas vezes que fui internado para tratamento do alcoolismo, foi porque o meu editor teve a coragem de me socorrer, chamando um médico.
Durante trinta anos vivi o meu mundo. Escritor de talento para uns e louco para a sociedade. Na minha cabeça eu tinha a certeza de que não sairia jamais da situação em que me encontrava. Os meus relacionamentos amorosos sempre foram rápidos e sem compromissos. A maioria deles era com prostitutas. As mulheres foram passageiras na minha vida, talvez tivessem medo de mim. Tudo era esquisito e o silêncio se fazia presente. Qualquer um que tentasse se aproximar, logo era descartado, muitas vezes de forma violenta. Sendo assim, nunca foi possível manter qualquer relacionamento.
Passaram-se duas semanas da conversa que mantive com Marlene. Eu já ia até me esquecendo dela. Certo dia, ao sair do meu apartamento, dei de cara com a vizinha do 301. Tentei me esquivar, mas não teve jeito. Ela colocou-se a minha frente, dizendo:
- Hoje você não escapa! Quero muito conversar com o escritor que tanto admiro.
- Pode ser outro dia? – Perguntei, tentando despistar.
- Não! Tem que ser hoje! – Respondeu taxativamente.
- Está bem, entre então. Não repare a sujeira da minha casa. A faxineira só vem na próxima semana.
- Não vim aqui para reparar nada, somente trocar algumas palavras com uma pessoa maravilhosa e repleta de talentos. – Disse.
Ficamos conversando a noite inteira. Ela bebeu comigo. Até trocamos olhares sensuais em alguns instantes. Mas ficamos nisso. Contou-me algumas passagens da sua vida, mas quem mais falou fui eu. Pela primeira vez na vida, consegui externar a imensa carga emocional represada ao longo do tempo. Marlene, com sua maneira autoritária, outras vezes, meiga, conseguiu abrir a porta do meu coração. Parece que ela veio cuidar das minhas feridas. Chegava a ser igual a uma enfermeira, com tanto zelo por mim. Em momento algum me criticou. No final da noite, quando achei que tinha ouvido tudo dela, na despedida disse:
- Eu descobri a senha do teu coração. Agora serei a tua dona. Só vai fazer aquilo que eu mandar. No fundo você é uma pessoa carente e frágil. Mas, fique tranquilo, não falarei nada para ninguém das coisas que conversamos. Outro dia, quem sabe, poderemos continuar a nossa conversa.
Senti-me nu na frente dela. Aquela mulher, sem mais nem menos, entrou na minha casa, descobriu os meus podres e ainda disse que era a minha dona e que eu era fraco. Eu precisava fazer alguma coisa. Não disse nada, somente agi.
Depois do serviço feito, voltei para a mesa na biblioteca e escrevi uma história sobre a vida de uma enfermeira intrometida que foi estrangulada e seu corpo jogado numa lixeira no condomínio onde residia.
Quando o dia começou a nascer, abri a janela do meu quarto para deixar o vento da manhã adentrar e assim limpar a intensa fumaça que tomou conta dos meus aposentos. Nesse momento, alguém bateu a minha porta. Abri, e uma linda moça, vizinha do andar de cima, diz:
- Bom dia, escritor! Há dois dias que bato a sua porta e você não atende.
- Bom dia. O que você quer? Algum problema? – Perguntei secamente.
- Desculpe, mas fiquei preocupada com você. – Respondeu - desconcertada com as minhas perguntas.
- Não se preocupe comigo. Não convido você para entrar porque o meu apartamento está totalmente desarrumado. – Acrescentei.
- Não precisa. Agora estou tranquila. Está tudo bem com você. Mas quando sobrar um tempo, gostaria de conversar um pouco. Nunca tive oportunidade de conhecer um escritor famoso. Só conheço você pelos livros e artigos publicados em jornais. – Revelou, tentando uma aproximação.
- Está bem, numa hora dessas conversaremos. Agora, se você me der licença, preciso tomar um banho e comer alguma coisa, estou faminto.
- Fique à vontade, já estou indo embora. Qualquer coisa que precisar pode me chamar. O meu nome é Marlene, moro no apartamento 301.
- Obrigado Marlene. O meu nome você já sabe.
- Sei sim. É o famoso escritor Flamingo.
A conversa com a minha vizinha até que foi boa, mas me deixou preocupado, estava querendo entrar na minha casa sem ser devidamente convidada. De certa maneira ajudou a quebrar o silêncio reinante. No momento em que a porta fechou, voltei para o meu mundo. Um mundo estranho, que somente eu tenho acesso e mais ninguém, que foi construído aos poucos. Essa construção teve início lá na minha infância. Os meus pais se drogavam na minha frente. Para fugir da situação, eu me refugiava no meu quarto. Só saía quando eles adormeciam, ou saíam para rua à procura de mais droga. Fui crescendo vendo as pessoas que eu amava se destruindo. Até que um dia, a morte acabou levando os dois. A alternativa foi viver com a minha avó, que também tinha problemas com bebida e não demorou muito a falecer.
Aos dezoitos anos de idade, vivendo sozinho e sem família, iniciei a minha carreira de escritor. Os meus primeiros escritos se basearam na minha experiência de vida. Relatei os acontecimentos amorosos dos meus pais e o alcoolismo da minha avó. Depois que eles morreram, conheci a vida noturna. A solidão continuou sendo a minha companheira.
Por sorte herdei uma pensão da minha avó, e com isso não foi necessário trabalhar. Em seguida comecei a receber recursos financeiros pela venda de artigos publicados em jornais. Toda a experiência dramática da minha família me contaminou profundamente. Herdei o vício da bebida e ainda loucura do meu avô. Nas vezes que fui internado para tratamento do alcoolismo, foi porque o meu editor teve a coragem de me socorrer, chamando um médico.
Durante trinta anos vivi o meu mundo. Escritor de talento para uns e louco para a sociedade. Na minha cabeça eu tinha a certeza de que não sairia jamais da situação em que me encontrava. Os meus relacionamentos amorosos sempre foram rápidos e sem compromissos. A maioria deles era com prostitutas. As mulheres foram passageiras na minha vida, talvez tivessem medo de mim. Tudo era esquisito e o silêncio se fazia presente. Qualquer um que tentasse se aproximar, logo era descartado, muitas vezes de forma violenta. Sendo assim, nunca foi possível manter qualquer relacionamento.
Passaram-se duas semanas da conversa que mantive com Marlene. Eu já ia até me esquecendo dela. Certo dia, ao sair do meu apartamento, dei de cara com a vizinha do 301. Tentei me esquivar, mas não teve jeito. Ela colocou-se a minha frente, dizendo:
- Hoje você não escapa! Quero muito conversar com o escritor que tanto admiro.
- Pode ser outro dia? – Perguntei, tentando despistar.
- Não! Tem que ser hoje! – Respondeu taxativamente.
- Está bem, entre então. Não repare a sujeira da minha casa. A faxineira só vem na próxima semana.
- Não vim aqui para reparar nada, somente trocar algumas palavras com uma pessoa maravilhosa e repleta de talentos. – Disse.
Ficamos conversando a noite inteira. Ela bebeu comigo. Até trocamos olhares sensuais em alguns instantes. Mas ficamos nisso. Contou-me algumas passagens da sua vida, mas quem mais falou fui eu. Pela primeira vez na vida, consegui externar a imensa carga emocional represada ao longo do tempo. Marlene, com sua maneira autoritária, outras vezes, meiga, conseguiu abrir a porta do meu coração. Parece que ela veio cuidar das minhas feridas. Chegava a ser igual a uma enfermeira, com tanto zelo por mim. Em momento algum me criticou. No final da noite, quando achei que tinha ouvido tudo dela, na despedida disse:
- Eu descobri a senha do teu coração. Agora serei a tua dona. Só vai fazer aquilo que eu mandar. No fundo você é uma pessoa carente e frágil. Mas, fique tranquilo, não falarei nada para ninguém das coisas que conversamos. Outro dia, quem sabe, poderemos continuar a nossa conversa.
Senti-me nu na frente dela. Aquela mulher, sem mais nem menos, entrou na minha casa, descobriu os meus podres e ainda disse que era a minha dona e que eu era fraco. Eu precisava fazer alguma coisa. Não disse nada, somente agi.
Depois do serviço feito, voltei para a mesa na biblioteca e escrevi uma história sobre a vida de uma enfermeira intrometida que foi estrangulada e seu corpo jogado numa lixeira no condomínio onde residia.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Ingênua Flor
Ela estava sentada na varanda da casa, observando o mar e as ondas quebrando na areia. Cada onda era uma foto que vinha e voltava. As imagens do passado fluíam como filme, às vezes coloridas, às vezes em preto e branco, passando pelo presente e viajando para o futuro, para tão longe onde seus olhos nem pudessem enxergar, quem sabe, para o outro lado do tempo. Já tinha navegado por muitos mares e conhecido dezenas de portos. Em todos eles deixou inesquecíveis saudades. A vida dela era uma folha corrida com histórias de amor, muita dor, angústia, emoção e alegria, que se perderam ao longo da caminhada.
O corpo já estava gostosamente cansado de tanto viver, de tanto olhar para o sol e de tanto se esconder da escuridão da noite. Muitas vezes tinha confessado que viveu o bastante para fechar os olhos e acordar na outra margem do oceano. Em diversos momentos, nas longas tardes de outono, via ao longe a hora chegando, vindo na sua direção, com flores e músicas em sua homenagem.
Muitas primaveras haviam passado, inúmeras alegrias e dezenas de tristezas fizeram parte da existência. Para uma mulher, a vida tinha sido bela e ao mesmo tempo emocionalmente cruel. Deu tudo e tudo tirou, deixando somente a solidão como sua derradeira companheira. Foi cortejada por belos homens e rejeitada por outros. Mas, de todos, um marcou muito a sua vida. Era o inesquecível Coiote. A imagem dele fazia com que o infinito viajasse eternamente deixando belas paisagens.
Mesmo andando por vários lugares das grandes cidades, ele permanecia caminhando suavemente dentro do coração e da alma. Nunca teve a deselegância de sair, apenas ficava dando leves toques de insustentáveis saudades. Por esse homem valeu a pena ter vivido até aquela data. Nunca foi embora, apenas ficou ao lado dos seus sentimentos, como se fosse um amante à espera da amada, ou uma gostosa sombra. Mas o tempo viajou depressa, deixando marcas pelo corpo.
Da sua beleza pouca coisa restou, as linhas do tempo tomaram conta de tudo e muitas cicatrizes em seu coração. O destino foi amargo para com ela, roubou o encanto. As imagens continuavam indo e vindo.
Paty estava sozinha e todos desapareceram. Até mesmo a encantadora beleza foi embora. Estava gorda e cheia de marcas pelas coxas e bunda. Os homens que juraram envelhecer com ela fugiram nas esquinas das noites. Foram tantas as noites, que nunca conseguiu contar, muito menos a quantidade de madrugadas que foi usada sexualmente. Nunca quis amar, exceto o seu grande amor: o saudoso Coiote.
Desde que se viu mulher dentro daquele pequeno mundo, sabia que teria uma vida profundamente embriagante com desconcertantes prazeres, mas que deixariam rastros de amor, paixões, ódios e chorosas saudades em diversos corações. Nasceu para uma vida de ilusão. Sabia que seria de muitos homens e que no final da vida estaria sozinha, catando os cacos da enlouquecida existência.
O sol começava a se aproximar da grande montanha, deixando o clima mais ameno e com um gostoso frescor. A mente continuava a viajar. Até parece que foi ontem que saiu da pequena cidade do Oeste de Santa Catarina.
Os anos se passaram como uma linda noite de ilusão, mas as emoções ainda se faziam violentamente presentes na alma. Às vezes chorava quando assistia ao filme da vida que teimava em passar lentamente. Estava vivendo e degustando as horas e as noites que foram tão belas que até hoje ainda sente os cacos das emoções que não morreram, apenas se fazem presentes de forma glamourosa.
Enquanto estava perdida com esses pensamentos do passado, ouviu uma voz que se aproximava:
- Dona Paty, é melhor a Senhora ir para dentro de casa, o tempo está se aprontando, virá um grande temporal. O mar está agitado. A senhora não tem mais idade para se molhar, é preciso cuidar com o resfriado.
Era a vizinha, Lourdes, que nos últimos tempos vinha todos os dias cuidar de Paty, pois sofria de hipertensão e às vezes caia sozinha. Muitas vezes fora socorrida desmaiada perto dos rochedos.
- Fique tranquila minha amiga, hoje estou mais forte. Qualquer coisa, irei para dentro de casa. – tranquilizou Paty.
- O que a Senhora está fazendo ai, parada olhando para o mar? Até parece que está conversando com alguém.
- Estou me lembrando do passado, conversando com os fantasmas, somente isso.
- Que fantasmas? – perguntou Lurdes.
- Você não os conhece. Não adianta explicar. – respondeu Paty.
- Está bem, mas não demore. – acrescentou Lourdes.
Lourdes era uma boa pessoa, surgiu de repente na vida de Paty. Ela também teve uma existência parecida com a da sua amiga, mas nunca revelou nada a ninguém. Em alguns momentos, Lourdes se recolhia para conversar com o tempo, em outras ocasiões chorava de saudade ou tristeza.
Mesmo com a ponderação de Lourdes, Paty voltou para assistir ao filme sobre a sua vida.
O pensamento foi lá atrás novamente, no início de tudo. Quando adolescente, começou a ver o mundo diferente e surgiu a oportunidade de sair da cidade para viver coisas além do portão da sua casa. Seus pais foram radicalmente contra. Mesmo sendo pessoas simples, não queriam que a adorada filha fosse morar distante do local onde nasceu, pois a sua maior alegria foi quando ela veio ao mundo.
Nesse momento conheceu um homem mais velho, charmoso e aparentemente rico. Ainda permanecia vivo na memória o dia em que o encontrou pela primeira vez, aquele que seria o seu eterno amor. Ou, aquele que mostraria para ela o outro lado da vida, o lado da noite, do dinheiro fácil, do consumo de todas as bebidas e também da tristeza.
Estava saindo do colégio com as amigas, quando Coiote parou o lindo carro e a convidou para dar uma volta e depois a deixaria em casa.
- Você ai, menina dos olhos verdes, quer uma carona?
Ela não pensou duas vezes para aceitar o convite daquele homem, mesmo sendo uma pessoa estranha.
- Aceito sim, nunca andei de carro, hoje será a primeira vez. – respondeu Paty, alegremente, sem imaginar que estaria naquele momento entrando numa longa estrada de orgias e bebidas.
Depois de alguns momentos dentro do carro, parecia que já o conhecia, tamanha foi à simpatia que os uniu. Estava profundamente feliz.
Andou pela primeira vez num belo carro e ainda acompanhada de um homem bonito e cheiroso era algo sensacional para a ingênua flor. A magia tomou conta dela, e o encanto fez com que seus olhos brilhassem perdidamente.
Eles se apaixonaram perdidamente, tudo aconteceu num passe de mágica. Daquele dia em diante, Coiote passou a buscá-la no colégio todos os finais de tarde. Não demorou muito e o convite para passar uma noite inteira aconteceu.
Nunca tinha ficado com alguém de sua idade, e muito menos, com um homem mais velho. Dali em diante, se encontravam todos os finais de semana num motel de Chapecó. Beijos e abraços estavam se tornando frequentes. Não sabia o que era fazer amor, sentir prazer e dar prazer a um homem.
No início, mesmo num motel, Coiote teve paciência com ela. Não foi além de umas caricias. Com ele tudo era novidade, pois foi com esse homem que conheceu o que era prazer. A primeira vez que se sentiu mulher, sendo acariciada e penetrada por um homem, entendeu que tudo seria diferente a partir daquele dia. Estava atravessando a ponte da vida de uma mulher.
Paty era uma linda menina, corpo pequeno e olhos verdes. Tinha coxas grossas, bumbum avantajado, cabelo loiro, seios grandes e lábios carnudos. Seu rosto parecia o de um anjo, vindo das estrelas para ser amado na terra. Mas somente a um poderia dar o coração e o amor. A sua magia escultural enfeitiçava qualquer homem por onde passava. Filha de pais pobres, agricultores, e de origem italiana, não conhecia o que era viver no conforto. Por isso que o novo mundo para ela seria algo deslumbrante. Um mundo cheio de oportunidades estava se abrindo a essa bela menina de olhos verdes. Uma princesa coberta de beleza e de uma formosura que fazia com que as pessoas ficassem tontas pela sua realeza.
Já Coiote era um homem do mundo e boêmio por natureza. Tinha que dar uma guinada na vida, talvez em agradecimento por tê-la tirado do fundo do quintal da sua tenra existência. Entendeu perfeitamente o papel que ambos desempenhariam nos próximos passos que iriam dar.
Paty não iria tirar nada dele, viveriam juntos uma nova e brilhante paixão, sem medo da felicidade. Curtir intensamente os momentos, mesmo sabendo que não seriam eternos. Não queria nada em troca, queria apenas ser uma mulher diferente daquelas que ele teve ao longo de meio século de vida, tanto que nunca lhe prometera algo que não pudesse cumprir. Também imaginava que o dia em que a relação terminasse, os sentimentos iriam permanecer guardados a sete chaves, para serem reabertos em outro tempo, quem sabe em outra época.
Ele tinha 50 anos bem vividos, viúvo duas vezes, estava à procura de mais uma emoção que agradasse o seu coração. Percorreu várias paixões de uns cem números de mulheres, não iria facilmente se apaixonar por mais uma mulher. Como qualquer homem de sua idade, namorar uma menina tão nova era algo que deixava qualquer um feliz da vida. Mas essa, imaginava, mudaria a sua vida, daria novo norte no seu horizonte. Ela iria mostrar a essência da paixão e das aventuras amorosas.
Porque a idade nem sempre indicava maturidade emocional e sentimental. Todas as mulheres com quem teve relacionamento correram atrás dele. Paty, não. A química de seus corpos os atraia, pois a partir do momento em que a conheceu, o coração balançou e nunca mais bateu da mesma forma. Tinha consciência de que a presença dela na sua vida, não duraria muito, mas seria profundamente intenso e essencialmente embriagante.
Não perdeu tempo. Fez de tudo para ela e por ela viveu o resto dos dias, mesmo distante e sabendo que não estaria sempre nos seus braços. Viu que era uma mulher diferente. Seus olhos eram infinitos. Seus beijos davam uma gostosa tonturinha e uma leve brisa que caia nos seus rostos. Ela, com amor, discrição e elegância, raro em mulheres de sua idade, indicou-lhe a melhor forma e o jeito de se vestir. Falou que para um homem de 50 anos, algumas coisas precisavam ser valorizadas e cuidadas. Nenhuma mulher que se apaixonou por ele, ao longo da vida, conseguiu sensibilizar a sua trajetória. Mesmo sendo do interior, sem muita cultura, sem saber o que era a cidade grande, a ingênua flor iluminou sua vida, deu sentido a sua auto-estima que estava em baixa.
Há mulheres que nascem para fazer a diferença na existência de um homem. Para Coiote, Paty foi determinante para a sua trajetória. Depois que conheceu aquela menina, afirmava que a vida tinha alcançado o êxtase. Chegou a agradecer aos céus por tê-la encontrado e as condições que se apresentaram para ambos.
Os dois anos que passaram juntos foram eternos enquanto duraram, em todos os aspectos. Viajaram e conheceram diversos lugares. Cada passo que davam, sabiam que não voltariam àquele lugar. Para Coiote, pela idade, era uma despedida de sua caminhada. Mas, para Paty, era o início de uma deliciosa experiência amorosa. Nada mais mágico e inebriante do que viver alguns momentos com alguém que só faz bem ao ego. Esses instantes são como uma música tocada ao por do sol, adentrando nosso ser, deixando nossos corpos em total harmonia com o universo. Foi assim que Paty e Coiote experimentaram essa charmosa experiência.
Mas tudo na vida tem um tempo. Temos um tempo para plantar e um tempo para colher. Por mais que nosso coração não queira, precisamos fazer a fila andar. Por mais que sintamos saudades, têm coisas na vida que é preciso fazer acontecer. Assim, o silencioso distanciamento, sem despedida e choros, se instalou no coração dos tristes amantes. Cada um seguiu seu destino sem deixar endereço. O último telefonema aconteceu numa manhã de quarta-feira de cinzas. Ele estava viajando e aproveitou a distância para desejar felicidades à Paty.
Ela não entendeu nada, mas com o decorrer dos dias, ficou claro que aquele telefonema era a despedida. Chorou copiosamente por muito tempo. O coração apertou, sentiu-se desprotegida. Coiote lhe ensinou coisas que nunca mais iria esquecer. Os ensinamentos foram fundamentais para o crescimento e para os passos futuros. Mas a vida precisava andar. Mesmo machucada, como uma andorinha, continuou seguindo o destino. Descobriu a balada e seus componentes. Não seria difícil recomeçar.
Assim, Paty iniciou verdadeiramente sua vida de mulher de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém. Nunca mais se deixou apaixonar por nenhum homem por mais bonito e rico que fosse. Dormiu com todos, mas não amou ninguém. Fingiu orgasmos para fisgar quem lhe desse algo em troca. Os verdadeiros orgasmos sempre foram com o seu amado Coiote e mais ninguém!
Coiote mostrou-lhe que a sociedade era hipócrita e não merecia respeito. Não casou porque não queria ter filhos. A Terra era um lugar de sofrimento e não iria trazer ao mundo uma pequena criatura para participar das orgias mundanas. Todos esses pensamentos povoavam a vida de Paty. Fez deles um guia e jamais se arrependeu por ter agido dessa forma.
Para cada noite com um homem era um valor. Cobrou até mesmo um beijo e fez orgias com inúmeros parceiros. Nunca se esqueceu de exigir que os homens usassem preservativos, assim estaria livre de doenças e filhos. Agiu friamente, mesmo recebendo lindas declarações de amor.
Um grande banqueiro jurou amor por ela, como não foi correspondido, se jogou do 15° andar do prédio onde morava. Queria ter Paty vivendo com ele o resto da vida, e como não conseguiu, preferiu casar com a morte a viver distante da mulher que enfeitiçou os seus dias. Também teve um comandante de avião comercial que largou tudo e foi atrás dela. Até recebeu certo tratamento, mas logo sentiu o abandono. Não suportando a saudade, virou andarilho e alcoólatra, viveu o resto dos dias chamando por ela.
Assim se tornou a ingênua flor: uma mulher magoada com o destino, triste com os céus e raivosa com a vida. Os homens que ousaram se apaixonar por ela tiveram um fim trágico.
Cada final de noite, sozinha numa cama qualquer, Paty, quieta, solitária, com o corpo suado e cansado de tanto sexo, chorava tristemente. Pensava: por onde estaria o amado Coiote? Nunca mais o viu. Suas lágrimas molhavam o travesseiro, mesmo assim esperava encontrá-lo um dia. Somente sabia da existência dele através dos livros que ele publicava.
Numa noite chuvosa e fria, após um programa, sentou na sala para assistir à televisão e para a sua alegria, viu o seu amor sendo entrevistado. A repórter, das varias perguntas que fazia, uma deixou Coiote com lágrimas nos olhos: se ele tinha amado alguma mulher de verdade. A resposta dele foi clara:
-“Eu já amei sim. Faz muito tempo. Existe uma mulher que ainda hoje mora dentro do meu coração, todos os dias me lembro dela. A sua sombra me acompanha por todos os recantos. Um dia irei reencontrá-la, nem que seja longe, muito longe, mas quero revê-la. É a minha doce menina Paty”. Depois dessa declaração através dos meios de comunicação, ela foi dormir e tentar procurá-lo nos sonhos.
Dois dias depois da entrevista, em alta velocidade, numa manhã de domingo, Coiote com seu carro preto e solitário, viajando de São Miguel do Oeste a Florianópolis, chocou-se violentamente contra um paredão de pedra na BR-282. O carro pegou fogo na hora e quando a Policia Rodoviária chegou, não restava mais nada, somente cinzas espalhadas pelo vento e uma mancha escura no asfalto.
Assim terminava a vida de um homem que nasceu para degustar as coisas boas. Ele sempre dizia que nunca iria morrer velho, que um dia iria ao encontro da morte de alguma forma. Tinha uma relação estranha com a morte, com o jeito de morrer. Coiote achava que era melhor morrer inesperadamente do que sofrer com uma doença grave no fundo de uma cama. Já tinha vivido meio século e aproveitado todos os prazeres que a vida lhe ofereceu. Nunca trabalhou, recebeu a riqueza dos pais. Também sempre foi uma pessoa generosa, ajudou a quem podia.
Na ocasião, os patrulheiros que atenderam o ocorrido não compreenderam o motivo do acidente. Era um dia calmo, sem chuva e ensolarado. A estrada estava boa e convidativa para viajar. Nenhuma marca de pneu ficou no asfalto. Como veio em alta velocidade chocou-se direto contra o paredão. Até parecia alguém sem destino à procura de uma morte sem dor.
O sol já estava se pondo e a noite estava batendo na porta do mundo. A tarde já tinha terminado sua missão de esquentar seus habitantes. Para o outono, aquele dia era um dos mais belos já produzidos pela natureza. Paty continuava sentada na varanda de sua casa assistindo ao filme de sua pregressa vida. Essa parte fazia com ela levitasse até a porta do céu, pois fazia com que lembrasse de Coiote, que a essas alturas já devia estar vivendo muito longe, quem sabe viajando entre as estrelas, ou em algum lugar onde o amor descansa. Não podia continuar vendo o passado daquela forma. Precisava olhar para frente e se preparar para a viagem que a levaria até junto do seu amado. Toda tarde era a mesma coisa: assistia ao filme no qual era a protagonista.
Ainda se recorda da frase que ele disse quando se encontraram pela primeira vez:
- ”Minha linda. Nós temos uma história a ser construída. Seremos amigos da noite, da boemia e vamos morrer com ela. A nossa afinidade vem de muito longe”.
Com os passar dos anos, entendeu o que ele queria dizer. Naquele momento, o seu coração começou a ficar fraco. A música que se aproximava ficou mais forte e a emoção começou a dilacerar seu peito. Viu um vulto que se aproximava com uma rosa amarela na mão. Começou a levitar e uma luz acariciou seu coração. As lágrimas escorreram no rosto. Era Coiote que estava chegando para levá-la. Cumpriu sua promessa, aliás, ele nunca faltou com a palavra. Sorrindo e com os braços abertos, acalentou Paty demoradamente e disse:
- Minha bela princesa de olhos verdes. Estou aqui para levá-la para viver comigo nas estrelas. Eu construí uma linda casa na Grande Estrela do Norte.
- Meu grande amor! Eu nunca me esqueci de você! Contei os dias para que esse momento chegasse. Agora estamos livres deste mundo triste. Somos como pássaros, vamos voar por todos os lugares.
Agora eles estavam juntos na outra margem do oceano. Souberam viver uma existência com sofrimentos, fracassos, paixão, luxúria e muito sexo, como dois errantes, mas seguiram seus destinos. Cada um cumpriu o seu papel. A idade não os separou, apenas fez com que cada um vivesse seu tempo, sem esquecer quem era o verdadeiro amor.
O temporal não veio e tudo se acalmou. O filme da vida da ingênua flor se acabou e a noite já se fazia presente na vila em frente ao mar. Lourdes, preocupada com Paty, foi até a sua casa e, chegando lá percebeu que ela permanecia sentada na varanda da casa. Os olhos estavam ainda abertos, voltados para o infinito e muito feliz. Chegou bem perto e tocou-lhe no braço. Para a sua surpresa, a pele estava gelada e parecia que a morte se fazia presente. Agarrou carinhosamente a grande amiga nos braços, e chorou silenciosamente. Sem falar nada para ninguém organizou o enterro.
Enterrou Paty próximo de uma grande pedra, na margem esquerda da praia e foi embora daquela vila. Voltou à cidade para avisar aos parentes da ingênua flor que havia cumprido a sua missão cuidando dela nos últimos dias de vida.
O corpo já estava gostosamente cansado de tanto viver, de tanto olhar para o sol e de tanto se esconder da escuridão da noite. Muitas vezes tinha confessado que viveu o bastante para fechar os olhos e acordar na outra margem do oceano. Em diversos momentos, nas longas tardes de outono, via ao longe a hora chegando, vindo na sua direção, com flores e músicas em sua homenagem.
Muitas primaveras haviam passado, inúmeras alegrias e dezenas de tristezas fizeram parte da existência. Para uma mulher, a vida tinha sido bela e ao mesmo tempo emocionalmente cruel. Deu tudo e tudo tirou, deixando somente a solidão como sua derradeira companheira. Foi cortejada por belos homens e rejeitada por outros. Mas, de todos, um marcou muito a sua vida. Era o inesquecível Coiote. A imagem dele fazia com que o infinito viajasse eternamente deixando belas paisagens.
Mesmo andando por vários lugares das grandes cidades, ele permanecia caminhando suavemente dentro do coração e da alma. Nunca teve a deselegância de sair, apenas ficava dando leves toques de insustentáveis saudades. Por esse homem valeu a pena ter vivido até aquela data. Nunca foi embora, apenas ficou ao lado dos seus sentimentos, como se fosse um amante à espera da amada, ou uma gostosa sombra. Mas o tempo viajou depressa, deixando marcas pelo corpo.
Da sua beleza pouca coisa restou, as linhas do tempo tomaram conta de tudo e muitas cicatrizes em seu coração. O destino foi amargo para com ela, roubou o encanto. As imagens continuavam indo e vindo.
Paty estava sozinha e todos desapareceram. Até mesmo a encantadora beleza foi embora. Estava gorda e cheia de marcas pelas coxas e bunda. Os homens que juraram envelhecer com ela fugiram nas esquinas das noites. Foram tantas as noites, que nunca conseguiu contar, muito menos a quantidade de madrugadas que foi usada sexualmente. Nunca quis amar, exceto o seu grande amor: o saudoso Coiote.
Desde que se viu mulher dentro daquele pequeno mundo, sabia que teria uma vida profundamente embriagante com desconcertantes prazeres, mas que deixariam rastros de amor, paixões, ódios e chorosas saudades em diversos corações. Nasceu para uma vida de ilusão. Sabia que seria de muitos homens e que no final da vida estaria sozinha, catando os cacos da enlouquecida existência.
O sol começava a se aproximar da grande montanha, deixando o clima mais ameno e com um gostoso frescor. A mente continuava a viajar. Até parece que foi ontem que saiu da pequena cidade do Oeste de Santa Catarina.
Os anos se passaram como uma linda noite de ilusão, mas as emoções ainda se faziam violentamente presentes na alma. Às vezes chorava quando assistia ao filme da vida que teimava em passar lentamente. Estava vivendo e degustando as horas e as noites que foram tão belas que até hoje ainda sente os cacos das emoções que não morreram, apenas se fazem presentes de forma glamourosa.
Enquanto estava perdida com esses pensamentos do passado, ouviu uma voz que se aproximava:
- Dona Paty, é melhor a Senhora ir para dentro de casa, o tempo está se aprontando, virá um grande temporal. O mar está agitado. A senhora não tem mais idade para se molhar, é preciso cuidar com o resfriado.
Era a vizinha, Lourdes, que nos últimos tempos vinha todos os dias cuidar de Paty, pois sofria de hipertensão e às vezes caia sozinha. Muitas vezes fora socorrida desmaiada perto dos rochedos.
- Fique tranquila minha amiga, hoje estou mais forte. Qualquer coisa, irei para dentro de casa. – tranquilizou Paty.
- O que a Senhora está fazendo ai, parada olhando para o mar? Até parece que está conversando com alguém.
- Estou me lembrando do passado, conversando com os fantasmas, somente isso.
- Que fantasmas? – perguntou Lurdes.
- Você não os conhece. Não adianta explicar. – respondeu Paty.
- Está bem, mas não demore. – acrescentou Lourdes.
Lourdes era uma boa pessoa, surgiu de repente na vida de Paty. Ela também teve uma existência parecida com a da sua amiga, mas nunca revelou nada a ninguém. Em alguns momentos, Lourdes se recolhia para conversar com o tempo, em outras ocasiões chorava de saudade ou tristeza.
Mesmo com a ponderação de Lourdes, Paty voltou para assistir ao filme sobre a sua vida.
O pensamento foi lá atrás novamente, no início de tudo. Quando adolescente, começou a ver o mundo diferente e surgiu a oportunidade de sair da cidade para viver coisas além do portão da sua casa. Seus pais foram radicalmente contra. Mesmo sendo pessoas simples, não queriam que a adorada filha fosse morar distante do local onde nasceu, pois a sua maior alegria foi quando ela veio ao mundo.
Nesse momento conheceu um homem mais velho, charmoso e aparentemente rico. Ainda permanecia vivo na memória o dia em que o encontrou pela primeira vez, aquele que seria o seu eterno amor. Ou, aquele que mostraria para ela o outro lado da vida, o lado da noite, do dinheiro fácil, do consumo de todas as bebidas e também da tristeza.
Estava saindo do colégio com as amigas, quando Coiote parou o lindo carro e a convidou para dar uma volta e depois a deixaria em casa.
- Você ai, menina dos olhos verdes, quer uma carona?
Ela não pensou duas vezes para aceitar o convite daquele homem, mesmo sendo uma pessoa estranha.
- Aceito sim, nunca andei de carro, hoje será a primeira vez. – respondeu Paty, alegremente, sem imaginar que estaria naquele momento entrando numa longa estrada de orgias e bebidas.
Depois de alguns momentos dentro do carro, parecia que já o conhecia, tamanha foi à simpatia que os uniu. Estava profundamente feliz.
Andou pela primeira vez num belo carro e ainda acompanhada de um homem bonito e cheiroso era algo sensacional para a ingênua flor. A magia tomou conta dela, e o encanto fez com que seus olhos brilhassem perdidamente.
Eles se apaixonaram perdidamente, tudo aconteceu num passe de mágica. Daquele dia em diante, Coiote passou a buscá-la no colégio todos os finais de tarde. Não demorou muito e o convite para passar uma noite inteira aconteceu.
Nunca tinha ficado com alguém de sua idade, e muito menos, com um homem mais velho. Dali em diante, se encontravam todos os finais de semana num motel de Chapecó. Beijos e abraços estavam se tornando frequentes. Não sabia o que era fazer amor, sentir prazer e dar prazer a um homem.
No início, mesmo num motel, Coiote teve paciência com ela. Não foi além de umas caricias. Com ele tudo era novidade, pois foi com esse homem que conheceu o que era prazer. A primeira vez que se sentiu mulher, sendo acariciada e penetrada por um homem, entendeu que tudo seria diferente a partir daquele dia. Estava atravessando a ponte da vida de uma mulher.
Paty era uma linda menina, corpo pequeno e olhos verdes. Tinha coxas grossas, bumbum avantajado, cabelo loiro, seios grandes e lábios carnudos. Seu rosto parecia o de um anjo, vindo das estrelas para ser amado na terra. Mas somente a um poderia dar o coração e o amor. A sua magia escultural enfeitiçava qualquer homem por onde passava. Filha de pais pobres, agricultores, e de origem italiana, não conhecia o que era viver no conforto. Por isso que o novo mundo para ela seria algo deslumbrante. Um mundo cheio de oportunidades estava se abrindo a essa bela menina de olhos verdes. Uma princesa coberta de beleza e de uma formosura que fazia com que as pessoas ficassem tontas pela sua realeza.
Já Coiote era um homem do mundo e boêmio por natureza. Tinha que dar uma guinada na vida, talvez em agradecimento por tê-la tirado do fundo do quintal da sua tenra existência. Entendeu perfeitamente o papel que ambos desempenhariam nos próximos passos que iriam dar.
Paty não iria tirar nada dele, viveriam juntos uma nova e brilhante paixão, sem medo da felicidade. Curtir intensamente os momentos, mesmo sabendo que não seriam eternos. Não queria nada em troca, queria apenas ser uma mulher diferente daquelas que ele teve ao longo de meio século de vida, tanto que nunca lhe prometera algo que não pudesse cumprir. Também imaginava que o dia em que a relação terminasse, os sentimentos iriam permanecer guardados a sete chaves, para serem reabertos em outro tempo, quem sabe em outra época.
Ele tinha 50 anos bem vividos, viúvo duas vezes, estava à procura de mais uma emoção que agradasse o seu coração. Percorreu várias paixões de uns cem números de mulheres, não iria facilmente se apaixonar por mais uma mulher. Como qualquer homem de sua idade, namorar uma menina tão nova era algo que deixava qualquer um feliz da vida. Mas essa, imaginava, mudaria a sua vida, daria novo norte no seu horizonte. Ela iria mostrar a essência da paixão e das aventuras amorosas.
Porque a idade nem sempre indicava maturidade emocional e sentimental. Todas as mulheres com quem teve relacionamento correram atrás dele. Paty, não. A química de seus corpos os atraia, pois a partir do momento em que a conheceu, o coração balançou e nunca mais bateu da mesma forma. Tinha consciência de que a presença dela na sua vida, não duraria muito, mas seria profundamente intenso e essencialmente embriagante.
Não perdeu tempo. Fez de tudo para ela e por ela viveu o resto dos dias, mesmo distante e sabendo que não estaria sempre nos seus braços. Viu que era uma mulher diferente. Seus olhos eram infinitos. Seus beijos davam uma gostosa tonturinha e uma leve brisa que caia nos seus rostos. Ela, com amor, discrição e elegância, raro em mulheres de sua idade, indicou-lhe a melhor forma e o jeito de se vestir. Falou que para um homem de 50 anos, algumas coisas precisavam ser valorizadas e cuidadas. Nenhuma mulher que se apaixonou por ele, ao longo da vida, conseguiu sensibilizar a sua trajetória. Mesmo sendo do interior, sem muita cultura, sem saber o que era a cidade grande, a ingênua flor iluminou sua vida, deu sentido a sua auto-estima que estava em baixa.
Há mulheres que nascem para fazer a diferença na existência de um homem. Para Coiote, Paty foi determinante para a sua trajetória. Depois que conheceu aquela menina, afirmava que a vida tinha alcançado o êxtase. Chegou a agradecer aos céus por tê-la encontrado e as condições que se apresentaram para ambos.
Os dois anos que passaram juntos foram eternos enquanto duraram, em todos os aspectos. Viajaram e conheceram diversos lugares. Cada passo que davam, sabiam que não voltariam àquele lugar. Para Coiote, pela idade, era uma despedida de sua caminhada. Mas, para Paty, era o início de uma deliciosa experiência amorosa. Nada mais mágico e inebriante do que viver alguns momentos com alguém que só faz bem ao ego. Esses instantes são como uma música tocada ao por do sol, adentrando nosso ser, deixando nossos corpos em total harmonia com o universo. Foi assim que Paty e Coiote experimentaram essa charmosa experiência.
Mas tudo na vida tem um tempo. Temos um tempo para plantar e um tempo para colher. Por mais que nosso coração não queira, precisamos fazer a fila andar. Por mais que sintamos saudades, têm coisas na vida que é preciso fazer acontecer. Assim, o silencioso distanciamento, sem despedida e choros, se instalou no coração dos tristes amantes. Cada um seguiu seu destino sem deixar endereço. O último telefonema aconteceu numa manhã de quarta-feira de cinzas. Ele estava viajando e aproveitou a distância para desejar felicidades à Paty.
Ela não entendeu nada, mas com o decorrer dos dias, ficou claro que aquele telefonema era a despedida. Chorou copiosamente por muito tempo. O coração apertou, sentiu-se desprotegida. Coiote lhe ensinou coisas que nunca mais iria esquecer. Os ensinamentos foram fundamentais para o crescimento e para os passos futuros. Mas a vida precisava andar. Mesmo machucada, como uma andorinha, continuou seguindo o destino. Descobriu a balada e seus componentes. Não seria difícil recomeçar.
Assim, Paty iniciou verdadeiramente sua vida de mulher de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém. Nunca mais se deixou apaixonar por nenhum homem por mais bonito e rico que fosse. Dormiu com todos, mas não amou ninguém. Fingiu orgasmos para fisgar quem lhe desse algo em troca. Os verdadeiros orgasmos sempre foram com o seu amado Coiote e mais ninguém!
Coiote mostrou-lhe que a sociedade era hipócrita e não merecia respeito. Não casou porque não queria ter filhos. A Terra era um lugar de sofrimento e não iria trazer ao mundo uma pequena criatura para participar das orgias mundanas. Todos esses pensamentos povoavam a vida de Paty. Fez deles um guia e jamais se arrependeu por ter agido dessa forma.
Para cada noite com um homem era um valor. Cobrou até mesmo um beijo e fez orgias com inúmeros parceiros. Nunca se esqueceu de exigir que os homens usassem preservativos, assim estaria livre de doenças e filhos. Agiu friamente, mesmo recebendo lindas declarações de amor.
Um grande banqueiro jurou amor por ela, como não foi correspondido, se jogou do 15° andar do prédio onde morava. Queria ter Paty vivendo com ele o resto da vida, e como não conseguiu, preferiu casar com a morte a viver distante da mulher que enfeitiçou os seus dias. Também teve um comandante de avião comercial que largou tudo e foi atrás dela. Até recebeu certo tratamento, mas logo sentiu o abandono. Não suportando a saudade, virou andarilho e alcoólatra, viveu o resto dos dias chamando por ela.
Assim se tornou a ingênua flor: uma mulher magoada com o destino, triste com os céus e raivosa com a vida. Os homens que ousaram se apaixonar por ela tiveram um fim trágico.
Cada final de noite, sozinha numa cama qualquer, Paty, quieta, solitária, com o corpo suado e cansado de tanto sexo, chorava tristemente. Pensava: por onde estaria o amado Coiote? Nunca mais o viu. Suas lágrimas molhavam o travesseiro, mesmo assim esperava encontrá-lo um dia. Somente sabia da existência dele através dos livros que ele publicava.
Numa noite chuvosa e fria, após um programa, sentou na sala para assistir à televisão e para a sua alegria, viu o seu amor sendo entrevistado. A repórter, das varias perguntas que fazia, uma deixou Coiote com lágrimas nos olhos: se ele tinha amado alguma mulher de verdade. A resposta dele foi clara:
-“Eu já amei sim. Faz muito tempo. Existe uma mulher que ainda hoje mora dentro do meu coração, todos os dias me lembro dela. A sua sombra me acompanha por todos os recantos. Um dia irei reencontrá-la, nem que seja longe, muito longe, mas quero revê-la. É a minha doce menina Paty”. Depois dessa declaração através dos meios de comunicação, ela foi dormir e tentar procurá-lo nos sonhos.
Dois dias depois da entrevista, em alta velocidade, numa manhã de domingo, Coiote com seu carro preto e solitário, viajando de São Miguel do Oeste a Florianópolis, chocou-se violentamente contra um paredão de pedra na BR-282. O carro pegou fogo na hora e quando a Policia Rodoviária chegou, não restava mais nada, somente cinzas espalhadas pelo vento e uma mancha escura no asfalto.
Assim terminava a vida de um homem que nasceu para degustar as coisas boas. Ele sempre dizia que nunca iria morrer velho, que um dia iria ao encontro da morte de alguma forma. Tinha uma relação estranha com a morte, com o jeito de morrer. Coiote achava que era melhor morrer inesperadamente do que sofrer com uma doença grave no fundo de uma cama. Já tinha vivido meio século e aproveitado todos os prazeres que a vida lhe ofereceu. Nunca trabalhou, recebeu a riqueza dos pais. Também sempre foi uma pessoa generosa, ajudou a quem podia.
Na ocasião, os patrulheiros que atenderam o ocorrido não compreenderam o motivo do acidente. Era um dia calmo, sem chuva e ensolarado. A estrada estava boa e convidativa para viajar. Nenhuma marca de pneu ficou no asfalto. Como veio em alta velocidade chocou-se direto contra o paredão. Até parecia alguém sem destino à procura de uma morte sem dor.
O sol já estava se pondo e a noite estava batendo na porta do mundo. A tarde já tinha terminado sua missão de esquentar seus habitantes. Para o outono, aquele dia era um dos mais belos já produzidos pela natureza. Paty continuava sentada na varanda de sua casa assistindo ao filme de sua pregressa vida. Essa parte fazia com ela levitasse até a porta do céu, pois fazia com que lembrasse de Coiote, que a essas alturas já devia estar vivendo muito longe, quem sabe viajando entre as estrelas, ou em algum lugar onde o amor descansa. Não podia continuar vendo o passado daquela forma. Precisava olhar para frente e se preparar para a viagem que a levaria até junto do seu amado. Toda tarde era a mesma coisa: assistia ao filme no qual era a protagonista.
Ainda se recorda da frase que ele disse quando se encontraram pela primeira vez:
- ”Minha linda. Nós temos uma história a ser construída. Seremos amigos da noite, da boemia e vamos morrer com ela. A nossa afinidade vem de muito longe”.
Com os passar dos anos, entendeu o que ele queria dizer. Naquele momento, o seu coração começou a ficar fraco. A música que se aproximava ficou mais forte e a emoção começou a dilacerar seu peito. Viu um vulto que se aproximava com uma rosa amarela na mão. Começou a levitar e uma luz acariciou seu coração. As lágrimas escorreram no rosto. Era Coiote que estava chegando para levá-la. Cumpriu sua promessa, aliás, ele nunca faltou com a palavra. Sorrindo e com os braços abertos, acalentou Paty demoradamente e disse:
- Minha bela princesa de olhos verdes. Estou aqui para levá-la para viver comigo nas estrelas. Eu construí uma linda casa na Grande Estrela do Norte.
- Meu grande amor! Eu nunca me esqueci de você! Contei os dias para que esse momento chegasse. Agora estamos livres deste mundo triste. Somos como pássaros, vamos voar por todos os lugares.
Agora eles estavam juntos na outra margem do oceano. Souberam viver uma existência com sofrimentos, fracassos, paixão, luxúria e muito sexo, como dois errantes, mas seguiram seus destinos. Cada um cumpriu o seu papel. A idade não os separou, apenas fez com que cada um vivesse seu tempo, sem esquecer quem era o verdadeiro amor.
O temporal não veio e tudo se acalmou. O filme da vida da ingênua flor se acabou e a noite já se fazia presente na vila em frente ao mar. Lourdes, preocupada com Paty, foi até a sua casa e, chegando lá percebeu que ela permanecia sentada na varanda da casa. Os olhos estavam ainda abertos, voltados para o infinito e muito feliz. Chegou bem perto e tocou-lhe no braço. Para a sua surpresa, a pele estava gelada e parecia que a morte se fazia presente. Agarrou carinhosamente a grande amiga nos braços, e chorou silenciosamente. Sem falar nada para ninguém organizou o enterro.
Enterrou Paty próximo de uma grande pedra, na margem esquerda da praia e foi embora daquela vila. Voltou à cidade para avisar aos parentes da ingênua flor que havia cumprido a sua missão cuidando dela nos últimos dias de vida.
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